A vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais americanas de 2024 traz expressivas mudanças para o cenário internacional. Isso porque, somando o inegável papel de liderança que os Estados Unidos da América exercem no mundo e o conhecido comportamento enérgico do presidente eleito, é nítido que as mudanças na política externa americana sob a gestão Trump irão trazer consequências mundo afora.

Mas como serão - ou poderão ser - tais consequências para a América Latina e para o Brasil?

A primeira delas, e talvez mais nítida, é a questão da imigração. Isso porque Trump é uma figura extremamente incisiva no que tange a imigrantes ilegais, o que pode afetar de maneira significativa as dinâmicas socioeconômicas em países latino-americanos. Embora suas políticas de deportação sejam difíceis de implementar em sua totalidade, é certo que Trump se esforçará para dificultar a imigração ilegal, e com o senado federal, a câmara dos deputados e o governo do Texas alinhados, serão indubitavelmente colocadas na prática.

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Assim, surgirão problemas para os países ao sul do continente, uma vez que os mesmos não teriam infraestrutura suficiente para receber os eventuais deportados. Outro ponto extremamente importante é o fato de que inúmeros latinos trabalham nos EUA para sustentar suas famílias que vivem em outros países, e com estes latinos perdendo a possibilidade de trabalhar com uma eventual restrição imposta.

Outro ponto importante a ser destacado é o intervencionismo e a influência americana na América Latina, que podem ser manifestas de duas maneiras diferentes:

Através de ação direta, visando principalmente o combate a regimes contrários como a Venezuela e Cuba, e o combate aos cartéis e ao tráfico de drogas. As proporções nas quais Trump irá impactar o status quo atual da América Latina é incerto, mas sabe-se que Havana e Caracas temem uma escalada na retaliação de seus governos, através de sanções, decisões políticas e até ações militares, embora limitadas. Tratando sobre o tráfico de drogas, é esperado que Trump organize ações militares severas contra cartéis, personalidades e locais associados à produção de drogas, já tendo sugerido até mesmo bombardeios a estes locais, o que demandaria um diálogo intenso com países latino-americanos para realizar. Ainda que seja incerto quais serão as políticas específicas adotadas pela gestão, a previsão é de que sejam violentas.

Também veremos tal influência e intervencionismo atuando de forma indireta, sobretudo incentivando uma nova onda da direita ideológica no continente, o que pode ter impactos na maioria dos regimes democráticos da região, incluindo o Brasil. A vitória de Trump foi intensamente comemorada em Buenos Aires, por exemplo, onde Javier Milei percebe a entrada de um novo aliado na Casa Branca. Para além da Argentina, a vitória foi comemorada por partidos e personalidades do espectro político de Trump em toda a América, indicando que a mesma representou um incentivo ao crescimento das ideias da Direita no continente, o que deve ser observado nas próximas eleições que ocorrerem.

Caso peculiar e talvez acentuado disso seja o de Jair Bolsonaro, aliado de longa data de Donald Trump, que deve usufruir de diversos benefícios com o republicano na Casa Branca, uma vez que Trump ser eleito não só representa o crescimento da Direita, mas também a presença de um aliado em uma posição extremamente influente no mundo, o que pode resultar, entre outras coisas, em sanções contra o Supremo Tribunal Federal e pressão contra o que republicanos americanos e direitistas brasileiros chamam de “censura e cerceamento da liberdade de expressão” no Brasil.

Mais um impacto notável é a questão da Guerra Comercial entre EUA e China. Com o protecionismo econômico defendido pelo presidente-eleito americano e a crescente retórica anti-China estando presente no Estado americano, espera-se que o embate comercial existente entre Washington e Pequim aumente nos próximos anos de forma drástica.

Tal disputa comercial será amplamente marcada por protecionismo, taxações e tarifas alfandegárias, o que, de modo geral, irá prejudicar o desenvolvimento chinês, fazendo com que o país talvez venha a diminuir suas importações. Dependendo de como essa situação for concretizada, pode representar um problema grave para países da América Latina, uma vez que a China e os EUA são os principais parceiros comerciais dos países da região e uma restrição na liberdade de comércio internacional promovida por estas duas nações prejudica a economia latino-americana. Apesar disto, o impacto deve ser observado setor por setor, uma vez que existem áreas da economia, como o agronegócio, por exemplo, que podem ser beneficiadas, uma vez que caso a China pare de utilizar produtos americanos específicos, pode se voltar para comprar os mesmos produtos de outros mercados, incluindo o Brasil.

Trump, que já começou a montar seu gabinete, assume em janeiro de 2025, promete trazer mudanças significativas para os EUA, para o mundo e para a América Latina. Resta-nos agora acompanhar sua efetividade e o quanto de suas ideias ele colocará em prática, apesar de que, com o Congresso e o Senado em mãos, as ideias do republicano não estão longe de serem efetuadas.