Do alto da copa da amendoeira, entre seus robustos galhos, eu ficava a observar tudo ao redor. Por vezes, sentia-me um marinheiro; comparava o balançar da árvore às revoltas ondas do mar. Contudo, de algum modo, ela era uma espécie de farol para mim: lá de cima, conseguia notar quando se aproximava alguma tempestade.
Um dia, ainda menino, no finalzinho da tarde, percebi que um temporal se formava no longínquo horizonte. As nuvens densas e escuras anunciavam a chegada de uma violenta tempestade. O tempo fechava-se cada vez mais; os ventos sopravam incessantemente, pareciam o alvoroço de muitas vozes — por vezes, uivavam como um lobo nas montanhas. Era uma catástrofe violentamente anunciada.
Nada se podia fazer àquela altura. Restava-nos apenas fechar portas e janelas e nos proteger dentro de casa. A forte ventania destelhou quase toda a casa, arrastou objetos pelo quintal, derrubando o que encontrava pela frente. Até minha majestosa amendoeira se foi naquele anoitecer tempestuoso.
Apesar de impetuosa e imparável, misteriosamente a tempestade passou. Foi embora como chuva de verão. A calmaria voltou a reinar. Pude ver a lua e as estrelas através do telhado. A frase “Quem perde o telhado ganha as estrelas” nunca fez tanto sentido quanto naquela noite.
A vizinhança foi tomada por um grande silêncio; parecia um daqueles mosteiros eremíticos. Sem eletricidade, era possível escutar o tilintar dos objetos nas outras residências. Como uma lâmina finíssima, podia-se ouvir os pavios das velas queimando noite adentro em nossa casa.
Na manhã seguinte, os vizinhos reuniram-se diante dos destroços para lamentar suas perdas e discorrer sobre o tormento da noite anterior. Nenhuma casa saíra incólume da tempestade.
Depois disso, nunca mais vi uma tempestade com os mesmos olhos. Tenho medo dos estragos que elas são capazes de deixar. O mau tempo é inevitável, e a qualquer momento pode surgir uma nova tormenta. Embora, por maior e mais intensa que seja, nenhuma dura para sempre.
Hoje, minha única preocupação é: onde devo me abrigar? O que importa é sobreviver durante e depois do caos. A tempestade cessou, sobrevivemos. Restava-nos assumir os prejuízos, calcular as perdas e colocar tudo em ordem.
Comentários: