Li nos jornais esta semana: “Grupos de assobio, onde só vale assobiar, viram febre e reúnem milhares de pessoas no Brasil”. Fiquei incrédulo. O assobio não é novidade, novidade mesmo é que existem milhares de simpatizantes dessa prática do momento.
Lembro do meu pai assobiando pela casa aos domingos à tarde. Eu achava que era por falta do que fazer. Hoje, vendo que o assobio voltou, não sei se ainda penso assim. Quem sabe seja um dos entretenimentos dos homens sérios, que falam pouco, assim como era o meu pai. Nelson Rodrigues, em uma de suas falas, lamentou que ninguém mais assobiava, que, ao sair de moda, o assobio foi reduzido a gestos e sinais silenciosos.
Outro dia fui visitar um amigo e, ao chegar, havia outro que estava gravando um assobio para um grupo de WhatsApp. Fiquei surpreso com a cena, pois, no dia anterior, havia lido sobre a febre do tal assobio em alguns estados do Brasil. Ainda sem acreditar, ouvi a reprodução dos áudios, apenas assobios, alguns afinadíssimos, em tons nem altos nem baixos, sons melodiosos, imitando pássaros, cantando MPB, cada um criando seu repertório, sua própria trilha musical.
Sei que nesses grupos existem regras, e elas são levadas ao extremo. É proibida qualquer tentativa de escrita, fala, imagens, figurinhas, qualquer coisa que não seja o assobio. Os participantes se comunicam por meio desse código ancestral. Ao descumprir as regras, o integrante é imediatamente removido do grupo.
Certamente minha saída de um grupo desses se daria em poucas horas, como não sei assobiar, eu acabaria usando a voz ou a escrita. Não entendo muito do assunto, afinal, as únicas vezes em que precisei usar esse recurso pré-histórico foram em ocasiões em que gestos e acenos seriam inúteis. Assim como a moda, estilos e afins vão e vêm, dessa vez a moda do assobio voltou. Raramente entro em modismos, o último em que entrei, ter um toca-discos de vinil e os próprios vinis, me custou alguns trocados. Se eu tivesse talento e soubesse assobiar, talvez me custasse mais barato. De todo modo, espero que o mundo fique mais alegre quando, em qualquer parte, haja um assobiador assobiando “Garota de Ipanema”.
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