Esta semana, estampado na capa de jornais e revistas, lia-se: “Não há mulher tão relevante nesse momento no Brasil como Virgínia”. É comum que a mídia eleja, de tempos em tempos, mulheres influentes, de vida publicamente exposta, à categoria de “a mais importante da atualidade”. Não é de hoje que os holofotes escolhem suas protagonistas.

Por outro lado, curiosamente, na mesma semana, uma mulher completamente desconhecida até então também ganhou notoriedade nos meios cibernéticos e midiáticos. Desta vez, alguém totalmente distante dos padrões exigidos pela sociedade e longe dos flashes: a Dra. Tatiana Sampaio.

Enquanto isso, a ciência brasileira avança em passos largos com uma descoberta que ecoa pelo mundo: a polilaminina. Uma molécula capaz de ajudar células nervosas a reorganizarem conexões e restabelecerem a comunicação entre neurônios, criando condições para que o sistema nervoso volte a funcionar. Pessoas com lesões neurológicas, limitações motoras e danos na medula espinhal passaram a apresentar melhoras significativas, incluindo a recuperação parcial de movimentos antes considerados impossíveis — tudo isso graças ao medicamento desenvolvido após longos anos de pesquisa da Dra. Tatiana.

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Não escrevo para promover uma batalha entre mulheres. Pelo contrário. Cada uma tem seu mérito por estar onde conquistou estar. A diferença entre elas está na projeção de relevância.

Enquanto uma está na boca do povo, sob os holofotes, acumulando seguidores e cifras milionárias, a outra — sem seios ou pernas à mostra, distante do padrão de “mulher brasileira” que tantas vezes se vende — permaneceu escondida, solitária e quase esquecida em um laboratório por mais de duas décadas. Enfrentou os desafios de pesquisar praticamente sozinha algo que poderá beneficiar a humanidade. Sem recursos abundantes. Sem aplausos. Sem incentivos. Sem garantias.

Sabe-se lá quantas horas e dias passou enclausurada, vestida com seu jaleco branco, na companhia silenciosa de lâminas, tubos de ensaio e microscópios. Enquanto isso, o mundo rolava a tela.

Mas a protagonista da vez é Virgínia — como tantas outras que vieram antes dela, cada uma em seu tempo. Nem quero entrar no estereótipo, embora seja difícil ignorar o tema. Quem não se lembra das grandes musas da TV, do futebol, das revistas masculinas? Hoje, as influencers da internet ocupam esse mesmo espaço simbólico.

Contudo, a internet também tem seu lado democrático. Ela é generosa quando quer. Prova disso é que estou aqui escrevendo sobre a nossa cientista brasileira, que até pouco tempo eu desconhecia, e que o algoritmo, em um raro gesto de virtude, me apresentou.

O tempo passará para ambas. O esquecimento é quase sempre inevitável. No fim, ele dirá quem permanecerá na posteridade — embora a história, muitas vezes, seja cruel ao apagar mentes brilhantes. Ainda assim, acredito que a Dra. Tatiana será imortal toda vez que alguém estudar sua pesquisa, citar seu nome em um artigo ou digitá-lo em um mecanismo de busca. É assim que os verdadeiros legados se perpetuam: silenciosamente, nos avanços que transformam vidas.

Como já disse, não se trata de comparação. As mulheres são deslumbrantes e conquistaram o mundo — disso não há dúvida. Apenas precisamos que apareçam, se multipliquem e se popularizem pelo mundo afora muitas Dras. Tatianas. O planeta está carente.

Virgínias, ao que parece, já temos em excesso.