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Colunas / Coluna do Kerley

Decadência dos Bons Costumes

Abrir a porta de alguém é abrir sua intimidade

Decadência dos Bons Costumes
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Todo lugar tem um chato — inclusive eu. Os amigos já me alertaram sobre minha chatice, mas só me dei conta de uns tempos pra cá. Defendo os chatos porque cada um tem suas razões para sê-lo.

Outro dia, depois do jantar, fui para o computador ler e-mails, como de costume. Às vezes me deparo com algum artigo interessante sobre política ou ciência. Entre as mensagens, havia uma de uma moça me pedindo — quase implorando — uma entrevista comigo. Ela queria que fosse no local onde escrevo, em meu escritório, e afirmou que a reportagem seria para um programa cultural na TV, transmitido em algumas cidades do estado. Topei. Marcamos, e poucos dias depois ela chegou, acompanhada por dois, dos três rapazes que formavam sua equipe.

A entrevistadora me parecia jovem demais para o trabalho, mas apostei minhas fichas no talento dela. Observei atentamente aquela moça, que acabara de conhecer e já adentrava o escritório, revistando tudo, quase como uma detetive. Os dois rapazes pareciam reprovar cada gesto dela, especialmente quando, desastradamente, deixou cair um bibelô de porcelana que herdei da minha avó. Ao ver os cacos espalhados pelo chão, não consegui disfarçar meu descontentamento. Não era pelo bibelô — era pela falta de bom-senso. Abrir a porta de alguém é abrir sua intimidade.

Minha secretária, ao saber das visitas, espalhou cinzeiros por quase todo o escritório, sem saber se a moça fumava. Mal a gravação começara, ela já havia acendido três cigarros, jogando as bitucas no chão. Uma tremenda falta de respeito, uma afronta ao dono do espaço. Minha secretária, incomodada, fazia gestos discretos tentando encerrar a entrevista, enquanto eu tentava manter a conversa de forma civilizada.

Pedi para que não filmassem algumas peças “raras”, incluindo quadros de parede arrematados numa liquidação de peças “cafonas” que comprei na Europa. Surpreendentemente, a moça insistia no contrário, mandando que o câmera registrasse cada detalhe da sala e do escritório.

Olhei para minha secretária e percebi seus gestos implorando pelo fim da entrevista. Temi que ela mesma interrompesse a gravação, chamando a entrevistadora de “porca”. Fatalmente, seu aborrecimento chegaria até mim. (Quem nunca passou por isso?) Acenei para a dama, disse que encerrássemos o papo, pedi licença e fui para o banheiro. Fiquei lá algum tempo, voltei e deixei claro que não queria que aquela entrevista fosse reproduzida. No final, não autorizei o uso das imagens, pedi desculpas e despedi a equipe.

No dia seguinte, abri meu e-mail; lá estava a mensagem da moça: “Você é um tremendo chato!”. Concordei silenciosamente, desliguei o computador e fiz um gesto obsceno com o dedo diante da tela preta em protesto da minha paz.

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Kerley Carvalhedo

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Kerley Carvalhedo

Kerley Carvalhedo (Marabá, Pará, 11 de março de 1991) é um escritor e cronista brasileiro. Formou-se pela Universidade Católica de Brasília (UCB).

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