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Colunas / Coluna Breno dos Santos

O mistério dos Martírios

Breno dos Santos, geólogo que descobriu Carajás, escreve sobre os primórdios da corrida pelo ouro no sul do Pará

O mistério dos Martírios
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Todos têm seus mistérios. Alguns mais céticos, como eu, carregam suas dúvidas por toda a vida, tudo procurando explicar como meras coincidências. Outros, mais místicos, têm a certeza de que no destino assim estava escrito, ou que forças extraterrenas determinaram os acontecimentos. Talvez para provocar o meu ceticismo, a vida me preparou uma série de ciladas, mas nenhuma me marcou tanto como a da Serra dos Martírios.

Na minha adolescência, ainda não tinha desenvolvido o prazer da leitura. Meu tempo de lazer era gasto com as peladas de rua, os jogos de botão e os primeiros namoros, sobrando às leituras apenas as histórias em quadrinhos. Quem sabe no Natal, quem sabe no aniversário, tio Aldo presenteou-me com dois livros da Editora Melhoramentos, de autoria de Fran­cisco Marins: "Expedição aos Martírios" e "Volta à Serra Misteriosa" — o primeiro perdeu-se pelas mudanças da vida, mas o segundo ainda conservo comigo, cada vez mais como uma obra preciosa.

Fac-símile da capa de um dos livros de Francisco Marins

Deveria ter meus quatorze anos. Continuava com o meu ideal de ser engenheiro agrônomo, e nada sabia a respeito de Geologia. Pouco depois, as dificuldades familiares, advindas da cegueira do pai, mudariam totalmente os rumos de minha vida. O curso de Geologia que viria a ser criado — permitindo a carreira universitária sem sair de São Paulo — acabou sendo uma ótima opção, para ter uma profissão ligada à terra. Talvez os livros de Marins — os pri­meiros a me despertar o interesse pela leitura —, que tratavam de jazidas de ouro perdidas no interi­or do Brasil, tenham deixado alguma semente no meu inconsciente.

As atribulações da passagem para a vida adulta — cursinho, universidade, noivado, emprego, casamento, filhos, etc. — fizeram com que “Martírios” também ficasse perdido no meu esquecimento. É possível que a única referência inconsciente tenha ocorrido, num bate-papo com os colegas, nos últimos tempos de faculdade na Glete, quando, com meu entusiasmo de quase recém-formado, comentei:

- Acho que onde deve ter muitas jazidas, principalmente de ouro, é na divisa do Pará com o Mato Grosso. A região é muito afastada das áreas habitadas e pouca gente deve ter passado por lá...

Saladino, o mais experiente do grupo, logo rebateu com a sua sabedoria:

- O Breno é muito ingênuo. Pensa que a vida de geólogo é como brincar de Tarzan. Vai andando pelo mato e vai encontrando uma jazida aqui, e outra ali!...

As risadas gerais confirmaram a ingenuidade da minha fantasia. Mas pouco tempo depois — e ape­nas por coincidências — foram revelados o Distrito Aurífero do Tapajós e a Província Mineral de Carajás.

Depois dos três anos de Amapá, em 1967, tive que retornar à Amazônia, para a sobrevivência da família. Ao estudar alguns mapas, para planejamento do início do programa na região Araguaia-Xingu, com surpresa deparei com o registro de "Serra dos Martírios ou Ser­ra das Andorinhas", na margem esquerda do Araguaia, defronte a cidade goiana – hoje no Tocantins - de Xambioá. Só então, lembrei-me das leituras da adolescência — e pensei que deveria haver apenas coincidências de nomes, sem relação alguma com o passado. Mas achei fascinante esse fato, e a possibilidade de trabalhar na mesma região.

A descoberta de Carajás, logo no início da prospecção, em julho de 1967, com o desenvolvimento decorrente dos primeiros trabalhos, novamente levou para o esquecimento a curiosidade sobre “Martírios”.

Em 1969, ao expandir o programa de prospecção de manganês para o sul de Carajás — apenas os depósitos do Sereno e de Buritirama já estavam descobertos — foi selecionada, através de sobrevoo com avião e com a ajuda de fotos aéreas, uma bonita serra situada a noroeste de Conceição do Araguaia. Nos antigos mapas não possuía nome, mas, no rio que a cortava, estava escrito "rio Maria ou ribeirão das Andorinhas". Não sei se por achar mais simpático, ou por sua forma de asa de andorinha, optei por denominá-la Serra das Andorinhas. Por dificuldades logísticas, o reconhecimento da United States Steel nunca chegou a ser realizado.

Tempos depois, em 1973, e já na Docegeo, essa área foi escolhida para início dos trabalhos com o helicóptero, não mais pensando apenas em depósitos de manganês, mas também de metais-base. O sudeste do Pará começava a transformar-se, a partir da abertura da rodovia PA-150 (PA-70 na época), hoje BR-155, que permitiu a intensificação da exploração do mogno. Desenvolveram-se as cidades de Conceição do Araguaia e Redenção, e surgiu Rio Maria, nas proximidades da Serra das Andorinhas.

Em 1975, são identificados alguns indícios de sulfetos de zinco no flanco norte da serra. A aceleração dos trabalhos, na busca de novos depósitos desse metal, levou a descoberta, em 1976, de ocorrências de ouro no seu flanco sul, que conduziram aos depósitos de Babaçu, Mamão e Lagoa Seca.

Por ocasião da descoberta, ainda não havia garimpos de ouro nesta parte sudeste do Pará — só para os lados do Tapajós. Como os garimpeiros estavam extraindo cassiterita nas proximidades do Xingu, temia-se que a revelação do ouro de Andorinhas motivasse uma grande corrida na região — como de fato acabou acontecendo. Os cuidados iniciais mantiveram a descoberta sob sigilo absoluto, durante o primeiro ano.

Entretanto, com o início da construção da estrada para São Félix do Xingu, começa a surgir, junto à rodovia PA-150, a Vila do Entroncamento, hoje a sede do município de Xinguara. Em 1966, foi prometida a distribuição de lotes de terra, para ampliar os eleitores da vila, e transformá-la em município. Alguns colonos que não conseguiram lo­tes, e para a manutenção de suas famílias, começaram a garimpar nos igarapés que cortam a rodovia, e redescobrindo o ouro na região de Andorinhas.

Em setembro de 1977, o sigilo da descoberta é quebrado com grande repercussão na imprensa — chegaram a falar em 19 mil toneladas de ouro. Tudo isso fez com que novamente retornasse para o caminho de “Martírios”,

De um lado, os contatos com os órgãos de segurança, na tentativa de confinar o garimpo, nos levaram ao quartel da Brigada de Infantaria da Selva, em Marabá, onde seu comandante — General Waldemar — solicitou à Docegeo uma palestra sobre o potencial mineral da Amazônia — e a tarefa acabou sobrando para mim.

Como era a minha primeira palestra, achei que deveria esgotar o assunto. Houve preparativos tão cuidadosos, que durante três horas e com dezenas de slides, o corpo de oficiais da Brigada foi massacrado, com todas as informações disponíveis sobre os recursos minerais da Amazônia. E o dia era bastante impróprio: Brasília vivia a crise do General Frota, e todo o quartel estava de prontidão.

Por outro lado, a notícia do ouro de Andorinhas chegou ao conhecimento do historiador Manoel Rodrigues Ferreira, que divulgou uma nota na im­prensa de São Paulo, informando que não havia surpresa na descoberta, pois o local estava a poucos quilômetros da outra Serra das Andorinhas ou Ser­ra dos Martírios, onde o ouro já era conhecido desde os tempos dos bandeirantes.

Pela primeira vez, tive a informação de que Martírios não era apenas uma lenda dos livros da juventude. Através das obras do engenheiro Manoel Rodrigues Ferreira, tomei conhecimento das suas pesquisas exaustivas, desde a curiosidade despertada durante suas aventuras como sertanista, em meados da década de 1940, até a publicação do livro "O mistério do ouro de Martírios", em 1971 — depois da descoberta de Carajás. Para mim tudo era novidade, e seus relatos fizeram com que me emocionasse com outra lenda, que havia motivado as primeiras bandeiras pelo interior do País — a de Paraupava, lagoa no centro do continente, onde havia muito ouro nas profundezas de suas águas.

A invasão garimpeira, que foi controlada apenas no começo, acabou por explodir no início da década de 1980, com Serra Pelada, Cumaru, Rio Branco e tantas outras áreas. Mas aquela palestra, informativa, mas despretensiosa, foi parar nas mãos de um jornalista da Gazeta Mercantil, que, em 1979, publicou um resumo com destaque de chamada na primeira página, insinuando tratar-se de um "plano secreto" do Governo Figueiredo para a mineração na Amazônia. Como consequência, em meados do mesmo ano, fui surpreendido pela proposta de T.A. Queiroz Editor, para que a transformasse num livro. O desafio era estimulante, mas também assustador.

Enfrentava um momento difícil da minha vida, tendo que aceitar, impotente e à distância, a perspectiva de morte iminente de meu pai, consumido por um câncer implacável. Mas firmei o compromisso a tempo de comunicar que o livro a ser escrito lhe seria dedicado.

Foram seis meses de árduo trabalho noturno, de sonos interrompidos por febre criadora, e de fins de semana comprometidos — para desalento de Yolanda e filhos. Finalmente, no segundo semestre de 1981 — quase um ano depois — tive a emoção, jamais sonhada, de ver "Amazônia: Potencial Mine­ral e Perspectivas de Desenvolvimento", com minhas ideias expostas, nas livrarias e bancas dos principais aeroportos.

Viviam-se os tempos de implantação do Projeto Ferro Carajás. Várias vezes fui convocado para acompanhar comitivas de visitantes às obras, atuando, como "garoto-propaganda", na narrativa das histórias dos primeiros tempos. Numa dessas oportunidades, me desloquei até Carajás para gravar uma entrevista, destinada ao "Globo Repórter" — o que também acontecia com frequência. Levei comigo um exemplar do livro para presentear o amigo Sebastião Lopes — que anos depois seria companheiro de diretoria na Docegeo — acompanhante da equipe de reportagem.

Durante o voo da TABA, comecei a folhear o livro, abrindo-o casualmente no capítulo que tratava de Paraupava. Lembrei-me que ainda não havia enviado um exemplar ao historiador Manoel Rodrigues Ferreira, e preocupei-me em fazê-lo. Ao chegar à antiga Casa de Hóspedes de N5, comentei com Sebastião:

- Estava relendo a lenda do Paraupava. Vale a pena ler... — e logo acrescentei:

- A pesquisa do historiador Manoel Rodrigues Ferreira é fascinante!... Preciso enviar-lhe um livro...

- Por que você não faz isso agora?... Ele está na sala ao lado — respondeu Sebastião com naturalidade, mas gozando a minha surpresa.

 Antes que me refizesse, Manoel Ferreira entrou acompanhado pelo repórter Pedro Rogério. Só então fiquei sabendo que o historiador casualmente encontrara o livro, e comprara vários exemplares, para presentear aos amigos. Pedro Rogério estava com o livro na mão, aberto no trecho sobre Paraupava, e explicou-me:

- O tema da reportagem é a lenda do Paraupava, como se fosse uma premonição histórica. A lagoa seria a represa de Tucuruí, e as riquezas corresponderiam ao ferro de Carajás e ao ouro de Serra Pelada...

Alguns dias depois, em Belém, recebi o engenheiro Manoel Ferreira para uma tarde de gostoso bate-papo. Contou-me seu interesse inicial por “Martírios”, a partir das ruínas das bandeiras, descobertas durante a Expedição Roncador-Xingu, com os irmãos Villas Boas, na década de 1940. Seus incansáveis trabalhos de pesquisa permitiram a localização dos "Sinais dos Martírios" num pedral do rio Araguaia, em 1971, defronte à serra famosa. Na realidade, o desenho escavado de um possível Sol, que os bandeirantes, com a sua religiosidade, interpretaram como a “Coroa de Cristo”, daí o nome “Martírios”.

Martírios estava redescoberto, mas persistia o mistério de Paraupava, que por dedução intuitiva ele julgava ser a região da ilha do Bananal, no rio Araguaia. Contou-me, com emoção, a sua alegria ao descobrir acidentalmente, ao folhear a obra "Portugaliae Monumenta Cartographica", a reprodução de um antigo mapa, onde o rio Araguaia aparecia com a denominação de rio Paraupava. A obra havia sido publicada em 1962, mas só em 1976, durante visita a biblioteca do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, o fato foi descoberto.

Localização de Martírios

O seu mistério estava esclarecido, mas persis­tia o meu:

- Na época eu frequentava a Editora Melhoramentos, e narrei minhas pesquisas ao jovem escri­tor Francisco Marins, que se interessou pela "len­da" e pediu-me autorização para registrá-la em seus livros — esclareceu Manoel Ferreira.

Aparentemente, fechava-se o ciclo dos meus mistérios sobre Martírios, mas algumas coincidências ainda estavam para acontecer. No ano seguinte, recebi um telefonema do meu editor:

- Parabéns!... Seu livro ganhou o "Prêmio Jabuti", na categoria de Ciências Naturais...

- O que é isso?... — Perguntei atônito pela notícia.

- É o maior prêmio da Câmara Brasileira do Livro — esclareceu surpreso com a minha ignorância. E acrescentou:

- Você terá que vir a São Paulo, para recebê-lo.

Dias depois, estava com toda a família no auditório da Biblioteca Mu­nicipal de São Paulo, para a noite solene de entrega dos prêmios. Relembrava os tempos do científico noturno, no Colégio Roosevelt da Rua São Joaquim, com muitas tardes de domingo consumidas em pesqui­sa nos seus salões, quando com espanto ouvi a relação dos escritores que comporiam a mesa, pois entre eles es­tava Francisco Marins — de quem não tinha qualquer notícia recente.

Mas a surpresa — ou cilada? — ainda foi maior quando, na sequência natural de chamada, coube a ele entregar-me a estatueta.

Entrega do Prêmio Jabuti pelo escritor Francisco Marins (O Estado de São Paulo)

 

Logo depois da cerimônia, ainda tive tempo de lhe confidenciar a influência que seus livros, sobre “Martírios”, tiveram na minha vida.                     

“Martírios” não caiu mais no meu esquecimento e transformou-se numa gostosa lembrança, sem que novos fatos ocorressem. Até que, dez anos depois, durante a realização do simpósio "Sindamazônia", em Belém, fui surpreendido por um stand da "Fundação Serra das Andorinhas". Aproximei-me do responsável — seu presidente, Noé von Atzingen — e comentei:

            - O senhor sabe que essa serra tem outro nome?

            - Sim!... É Serra dos Martírios — foi a resposta curta e direta.

            - Não esperava uma fundação sobre essa ser­ra. Estou emocionado, porque ela faz parte da minha vida...

            - Eu sei!... Está no nosso jornal... — e entregou-me um exemplar de "Pedra Escrita".

No editorial, comentava-se a "Irmandade de Martírios", assim denominada, pelo historiador Manoel Ferreira, aquele grupo de jovens da década de 50, que marcados pelas leituras de Francisco Marins, acompanharam os "mistérios de Martírios" por toda a vida.

Já se passaram alguns anos sem que nada acontecesse. Mas do alto do meu ceticismo, não tenho coragem de afirmar que nova cilada não me espere nos anos que ainda me restam...

 

* Publicada originalmente na Revista Brasil Mineral e no livro Pelas Pedras do Caminho Mineral, da editora Signus

 

 

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Breno Augusto dos Santos

Publicado por:

Breno Augusto dos Santos

Breno Augusto dos Santos é um dos maiores geólogos da história do Brasil. Conhecido como "Descobridor de Carajás", é um profissional histórico e foi o grande vencedor do prêmio Pioneiros da Mineração 2024, entregue pela revista Brasil...

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