No final de 1989, a comunidade geológica brasileira foi abalada pela morte prematura de um americano que amara este País, como poucos, e dera uma valiosa contribuição para a formação de profissionais e para o desenvolvimento dos programas de exploração geológica.
Gene E. Tolbert havia falecido solitário em sua residência em Occoquan, Virginia, vítima de um infarto fulminante. Tolbert, natural de Concordia, Kansas, após servir o exército americano durante a Segunda Guerra Mundial, graduou-se em Geologia no Colorado College. Obteve os títulos de “Master of Arts” e de Doutor em Geologia, em Harvard, em 1956.
Em 1949, ingressou no United States Geological Survey (USGS), onde realizou trabalhos de prospecção de minerais radioativos, no Alaska, junto com o geólogo Max G. White, que se tornaria seu grande amigo para o resto da vida.
Embora tenha trabalhado pelo USGS em várias regiões do mundo, foi ao Brasil que mais se dedicou, não só do ponto de vista profissional, mas também emocional, afeiçoando-se às coisas e aos costumes de nossa terra.
Esteve pela primeira vez no Brasil em 1952, para trabalhar na pesquisa de minerais radioativos, desenvolvida pelo USGS e o governo brasileiro. Também executou trabalhos na mina de ouro de Raposos, em Minas Gerais.
Tolbert, durante excursão a Poços de Caldas, com a turma de Geologia da USP de 1963
Posteriormente, em 1956, retornou a serviço da Hanna, em Poços de Caldas, Minas Gerais, na pesquisa de bauxita. Mas foi a partir de 1959, que a sua presença se tornou mais marcante em nosso País. Tolbert passou a integrar a equipe de professores do recém-criado curso de Geologia da Universidade de São Paulo, na saudosa Glete, onde permaneceu até o final de 1963. Sua atuação, como mestre de Geologia Econômica, influenciou a carreira de vários jovens da época – hoje, velhos geólogos...
Retornou aos Estados Unidos, voltando a fazer parte do USGS, quando realizou trabalhos de geologia no Paquistão.
Entretanto, os laços que o uniam ao País, e que de tempos em tempos motivavam o seu retorno, fizeram com que ele voltasse em 1967, para liderar um programa de prospecção mineral, a serviço da United States Steel (USS), e desenvolvido pela subsidiária Companhia Meridional de Mineração.
Esse programa, conhecido como Brazilian Exploration Program (BEP), teve sucesso logo no início com os resultados em Carajás. Nós sabemos hoje, que os trabalhos de Carajás, desenvolvidos com a coragem e a criatividade de Tolbert, propiciaram uma revolução no cenário mineral brasileiro, atraindo mineradores nacionais e estrangeiros para a Região Amazônica, mas também, direta, ou indiretamente, contribuindo para que o governo brasileiro criasse a CPRM (Serviço Geológico do Brasil – SGB), a Docegeo e, em parte, o próprio Projeto Radam.
Tolbert foi pioneiro, e inovador, ao introduzir o uso do helicóptero no programa de exploração geológica na região Amazônica. O helicóptero já era utilizado, particularmente pela Petrobras, apenas como meio de transporte, até as bases da empresa. No programa da Meridional, passou a ser usado, pelos geólogos e equipe, diretamente na exploração geológica, através da abertura de uma rede de helipontos.
Foi Tolbert que teve a iniciativa de deslocar o nome Carajás, presente nos mapas da USAF, na região do rio Bacajá, para denominar as serras onde se encontram a maior parte das jazidas de minério de ferro. Posteriormente, o nome de Carajás passou a designar toda região, e tornou-se mundialmente conhecido.
Na mesma ocasião, quando teve contato com a descoberta do minério de ferro, batizou as serras Norte e Sul, e sugeriu a numeração das clareiras, na Serra Norte, de N1 a N8, e na Serra Sul, de S1 a S45.
Hoje, essas denominações fazem parte da rotina de quem trabalha, ou reside na região.
A alegria de Tolbert durante a sua primeira visita a Carajás, na clareira N3, antes da preocupação com a grandiosidade de tudo (17 de setembro de 1967)
Tolbert tinha características bastante próprias: sua personalidade inquieta jamais se submetia à mediocridade, e a excelência era buscada em qualquer trabalho que participasse. Isso fez com muitas vezes fosse afastado do sucesso de seu trabalho, mesmo com êxitos indiscutíveis, como no caso de Carajás. Após três anos da descoberta de Carajás, Tolbert, por intrigas e ciúmes internos da direção da United States Steel, foi forçado a pedir demissão do programa.
Felizmente, permaneceu no Brasil, sendo convidado, pela Companhia Vale do Rio Doce, para criar o programa que deu origem à Docegeo, participando como coordenador dos primeiros trabalhos da empresa, através da Terraservice. O sucesso alcançado pela Docegeo, ao longo de sua existência, propiciou a desejada diversificação mineral da CVRD.
Tolbert também tinha uma personalidade angustiante, muitas vezes prevendo o que poderia acontecer de errado no futuro de seu trabalho. Assim foi, por exemplo, na sua primeira visita a Carajás, quando da descoberta do ferro. Após a euforia do primeiro contato com a jazida, ele se tornou irascível e angustiado. Diante de uma pergunta sobre o porquê da inquietação, simplesmente respondeu:
- A jazida é muito grande e tenho a certeza de que a minha empresa não terá competência política para gerenciá-la... Certamente perderá essa jazida...
Felizmente, para nós brasileiros, isso realmente aconteceu...
Tolbert, após o trabalho na Docegeo, no final de 1974, retornou aos Estados Unidos, novamente para os quadros do United States Geological Survey (USGS), como responsável pelos trabalhos no Oriente Médio. Com a sua aposentadoria, em 1982, passou a atuar como consultor.
Sempre arrumava alguns motivos para voltar ao Brasil, e a Carajás, ou tratar de assuntos relacionados com o País, como o fez a serviço do Banco Mundial, na análise do Projeto Carajás da CVRD, dando um parecer favorável para o estratégico empréstimo do banco.
Assim continuou, várias vezes retornando ao Brasil, ora apenas como amigo, ora como consultor na área de informática.
Em outubro de 1980, participou do Congresso Brasileiro de Geologia, realizado em Camboriú, Santa Catarina. Logo depois, foi convidado pela Docegeo, para visitar Carajás, onde havia muitas novidades, como a descoberta do depósito de cobre-ouro do Salobo, o garimpo de Serra Pelada, e o início da implantação do Projeto Ferro,
Nessa ocasião, na sua despedida no aeroporto de Belém, bastante emocionado disse:
- Não sei por que estou voltando aos Estados Unidos. Meus amigos estão quase todos aqui...
Tolbert, ao lado do geólogo Roberto Assad, no local onde foi o acampamento pioneiro da Meridional (USS), na Clareira N1 (27OUT1980)
É muito difícil avaliar a real dimensão da contribuição de Tolbert para os programas de geologia do País, seja com professor, seja como empresário, seja como idealizador de programas novos, mas sem dúvida, para aqueles que puderam conviver com o seu trabalho, ficou a lição de humildade ante o desconhecido, e de coragem para enfrentar os riscos de um programa de exploração geológica.
(*) Adaptação de pronunciamento feito em cerimônia da revista Brasil Mineral, a 12 de dezembro de 1989, quando, entre os homenageados do ano, foi prestada homenagem póstuma ao geólogo Gene E. Tolbert.
Comentários: