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O casarão da Almirante

Breno dos Santos, geólogo que descobriu Carajás, divulga crônica escrita por companheiro de trabalho, falecido em 2 de fevereiro

O casarão da Almirante
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O amigo Carlos Alberto da Silva Alves, o saudoso Carlitinho, atuou por muito tempo na pesquisa dos depósitos de bauxita e de caulim, no Distrito Amazônia da DOCEGEO. 

Mas começou trabalhando em Carajás, na equipe de exploração geológica, Projeto Aquiri, do saudoso geólogo Décio Meyer, que foi homenageado com a denominação do depósito de cobre-ouro do Alemão.

Lutou muito contra um câncer.

Poucos companheiros estão sobrando.

Três amigos partiram com câncer depois da COVID.

Talvez só coincidência.

Carlitinho escreveu ótimas crônicas, sobre o trabalho na DOCEGEO, que foram publicadas na revista Brasil Mineral.

 

O casarão da Almirante

Carlos Alberto S. Alves

Quando saí da Caulim da Amazônia S.A. (Cadam), ainda grupo Ludwig, c entrei na Docegeo (CVRD), em 1975, fui entrevistado na sede da empresa em Belém, pelo geólogo Décio Meyer, na época chefe do Projeto Aquiri.

Entrei naquele "casarão", como era chamado o escritório da Almirante Barroso, construído pelos portugueses no início do século passado, composto de grandes salas, antigos quartos c amplos porões, que foram transformados em escritórios técnicos e de apoio. Fiquei esperando na recepção, olhando o vai-vem de peões, ouvindo o barulho da estação do rádio se comunicando com as frentes de campanha, em diferentes partes na Amazônia. Confesso que estava um pouco nervoso, porém logo notei que aquele casarão abrigava não só as ilusões de descobertas minerais, como também um ambiente de liberdade e participação bem diferente daquele que havíamos conhecido durante nossa passagem pela universidade, no início dos anos 70.

Após alguns minutos de espera, fui levado à presença do "Alemão", como era chamado Décio, que, sem maiores prolongamentos, perguntou se eu topava trabalhar no mato como geólogo de exploração, em pesquisa de minerais básicos. Vindo da área de minerais industriais e, ansioso por novos conhecimentos, aceitei, sem titubear, o convite. No dia seguinte, já estava embarcando para Marabá, onde pegaria um barco para subir o rio Itacaiúnas, na minha primeira campanha.

 Saí daquele casarão festejando o novo emprego e já simpatizando com aquele espírito de "Jim das Selvas" do Décio, que mais tarde percebi ser predominante na equipe do Projeto Aquiri.

Era uma verdadeira "Arca de Noé". Todos os tipos humanos habitavam aquele casarão, que reunia todas as atividades inerentes a pesquisa mineral: escritórios de geólogos e técnicos, administração, biblioteca, apoio logístico, sala de desenho, depósitos de amostras, etc.

 Até mesmo um sociólogo foi incorporado à equipe, não sem protestos corporativos que defendiam mais um geólogo no quadro. Na verdade, a experiência mostrou como foi útil a abordagem preliminar com as comunidades, garimpos, áreas indígenas, feitas com a ajuda do Luís Bandeira na assessoria do Chefe do Distrito.

Conciliando todas as tendências filosóficas, que se debatiam tanto nas reuniões do planejamento, quanto nos corredores no dia-a-dia, sobressaía a figura do geólogo Breno Augusto dos Santos, na época Chefe do Distrito Amazônia, que com muita habilidade equilibrava os arroubos políticos de seus jovens comandados, com as exigências disciplinares do regime em vigor.

 Breno introduziu entre a equipe normas e procedimentos inovadores, pondo já em prática princípios de administração por objetivos, hoje consolidados na Gerência de Qualidade Total: cada geólogo, ao entrar na empresa, recebia um número de controle para amostras a serem coletadas, e que acompanhava todos os procedimentos físico-químicos, até a apropriação do resultado final das análises.

A grande paixão de todos era a geologia, elo comum na busca de jazidas, que justificassem um empreendimento mineral. Grandes operações foram montadas, naquele casarão, a partir dos métodos indiretos como geofísica aérea, fotointerpretação, bibliografia, etc. Selecionavam-se alvos e partia-se para uma verdadeira operação "Força-Tarefa" que, apesar de alguns recursos sofisticados, como o uso do helicóptero, ainda dependia da determinação humana em vencer obstáculos.

Naquele tempo, passava-se de 30 a 60 dias no campo e, alguns geólogos e técnicos, que não tinham residência em Belém, guardavam suas malas no casarão e ficavam até 90 dias.

Quando voltávamos das campanhas, era costume trazer pedaços de amostras de rochas para mostrar aos colegas que trabalhavam em outras áreas, todos ávidos para descobrir alguma coisa.      

O chamado "Milagre Econômico", que dominava o País naquela época, promoveu a entrada de muitas empresas e, de certa maneira, estimulava a corrida atrás das minas da Amazônia.

Logo começaram a aparecer os frutos daqueles trabalhos. A Docegeo, na década de 70, descobriu jazidas na Amazônia, além de identificar alvos potenciais que foram trabalhados posteriormente.

Naquele casarão acontecia de tudo, desde cenas de ciúmes, passando por visitas de políticos e executivos de outras empresas, até pedradas no telhado que, vez por outra, alunos de um colégio vizinho atiravam.

Após as reuniões de Distrito, que aconteciam a cada fim de mês, alguns geólogos saíam para detalhar as questões do dia, nos bares da cidade, até terminarem em outro casarão famoso de Belém, na época, chamado "Pagode Chinês".

As figuras que habitavam aquela aldeia foram as mais interessantes que já conheci. Eram oriundas do diferentes partes do País, cada qual trazendo sua cultura e seus costumes; até mesmo alguns estrangeiros foram contratados, culminando com uma mistura heterogênea, porém salutar, para a empresa.

Então, lembro de alguns companheiros (as) como Dona Célia (Secretária do Chefe), muito eficiente, mas que usava como vocabulário palavras não muito usuais. Assim, quando um geólogo voltava mais de duas vezes para corrigir qualquer texto que ela datilografasse, já sabia que ia ouvir um de seus famosos refrãos: "este texto parece couro de p...".

Roberto Assad, com seu jeito "chapliniano", animava qualquer ambiente em que estivesse; o Thadeu Teixeira, que só ouvia o que queria; o Walter Hirata, que, para economizar no projeto, distribuía apenas 20 centímetros de papel higiênico para cada peão utilizar na sua higiene pessoal; o Vanderlei Beisiegel, que, aonde ia, carregava o seu baú, como era chamado lodo o acervo histórico da pesquisa do ferro Carajás; o Armando Cordeiro, um grande tribuno, que se envolvia em calorosas discussões, e sempre terminava dizendo que o oponente não sabia discutir, pois estava nervoso; o Décio Meyer, que por gostar tanto de mato chegou a trazer, para ornamentar seu banheiro, um tronco de árvore para não esquecer a famosa posição de descarregar o rejeito; o Neidemar Farias, o "gentleman" da selva; o Antonio Pinto, "nudista ecológico"; o Arthur Bernadelli, sempre acompanhado do seu gravador e boas músicas; o João Rigon, crítico ferino; o Kiyoshi Kadekaru, rei da sutileza; o Raimundo Montalvão, eternamente apaixonado pela geologia; o William Mac Manus, uma grande figura humana; o Mc Candles, americano boa praça; além da chamada jovem guarda da época, time que me incluía, juntamente com os colegas João Bosco, Alberto Rogério, Ricardo Saueressig, Reinaldo Gonçalez, Sérgio Habe, Edivaldo Amaral, Sílvio Mauad, Oscar Pimenta e Eduardo Angelim.

O intercambio era intenso com colegas vindos de outras regiões, que também participavam do dia-a-dia do casarão, como o Rodrigo Werneck, o Francisco Fonseca, Francisco D'Assumpção (Chicão), Zé Carlos, Astor e Vânia Andrade.

Ainda sob o clima ameno que existia naquele ambiente, um fato que marcou o casarão foi quando Dona Célia mandou instalar uma campainha para chamar os office-boys. Como Vanderlei trabalhava na sala em frente e não suportava o barulho produzido pela campainha, comprou uma buzina, semelhante à utilizada pelo famoso Chacrinha em seus programas de televisão. Então, quando Dona Célia tocava sua campainha, Vanderlei começava a buzinar c repetir o refrão chacriniano: TEREZINHA!...

Como a história quem faz é o homem e quem conta é quem está vivo, arrisquei-me a escrever estas linhas, pedindo desculpas aos colegas que trabalharam naquele casarão e não foram citados, bem como aos citados, pelas revelações do texto. Encerro fazendo à seguinte reflexão:

"É interessante como dentro daquele espaço improvisado se agruparam tantos talentos, que com muita garra constituíram um novo capítulo na história da mineração na Amazônia".

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Breno Augusto dos Santos

Publicado por:

Breno Augusto dos Santos

Breno Augusto dos Santos é um dos maiores geólogos da história do Brasil. Conhecido como "Descobridor de Carajás", é um profissional histórico e foi o grande vencedor do prêmio Pioneiros da Mineração 2024, entregue pela revista Brasil...

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