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Colunas / Coluna Breno dos Santos

Serra da Costela

Confira mais uma coluna de Breno dos Santos, o geólogo que descobriu Carajás

Serra da Costela
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Quase nada tinha nome... Apenas os maiores rios já tinham recebido as suas denominações... A própria Serra dos Carajás tinha o seu nome deslocado nos antigos mapas da USAF.

Íamos dando nome, no dia a dia, sempre que algum acidente geográfico entrasse no programa de exploração geológica, ou fosse objeto de alguma referência.

Carajás foi simples, pois o nome já estava próximo... Tolbert, logo na primeira visita, achou natural denominar as duas serras, com clareiras, de Serra Norte e Serra Sul... Daí surgiram as clareiras e principais jazidas de ferro: N1 (Norte 1), N4 e N5 e S11 (Sul 11).

Serra Leste, pela evidência de estar a leste das principais jazidas e, Serra de São Félix, pela proximidade da localidade homônima. A Serra do Rabo, por parecer no antigo foto-mosaico do Projeto Araguaia, como uma cauda, na extremidade leste da Serra Sul. Serra Arqueada, dada a sua morfologia, pela emergência de se arrumar um nome durante telefonema ao escritório do Rio de Janeiro, para comunicar a descoberta das ocorrências de minério de ferro...

A Serra Misteriosa surgiu como consequência de uma brincadeira... Logo após a descoberta do manganês de Buritirama, foi feito um voo de reconhecimento para se verificar a possibilidade de continuação do mesmo ambiente geológico mineralizado. Havia uma grande serra a noroeste, aparentemente com uma morfologia favorável para a prospecção de manganês.

Entretanto, correspondia a um divisor das águas do Itacaiúnas e do Bacajá, sem possibilidade de acesso fluvial. O único meio era o helicóptero... Foram feitas algumas tentativas, mas a distância até o Castanhal do Cinzento estava no limite da autonomia de voo do precário Bell G. O piloto sem sucesso procurava uma clareira para deixar a equipe, e tinha que retornar à base do Cinzento. Comecei a brincar com a equipe que era um mistério o que lá deveria existir, e Misteriosa virou o seu nome.

Passados alguns anos, quando já estávamos na base do Deserto, em Buritirama, foi localizada uma piroca granítica, alguns quilômetros a leste da serra. Assim, foi possível levar uma equipe pioneira, que chegou à serra, e começou a abrir uma rede de helipontos e picadas para o reconhecimento geológico. Mas o seu nome causou problemas. Foram muitos os relatos de auxiliares de campo sobre visagens nas noites em seus acampamentos...

E foi deixado um mistério para os geólogos que venham a fazer prospecção na área. Algumas vezes, o piloto Leno teve que ir até a serra para retirar membros da equipe, para a folga de campo, com o helicóptero vazio. Como tinha a compleição de um jóquei, colocava, no lugar do passageiro, blocos de manganês da jazida B5 – onde hoje está a mina de Buritirama -, para melhor equilíbrio do equipamento durante o voo. Vários blocos foram descartados nos helipontos da serra, onde não fora encontrado nenhum indício de manganês...

Serra Esquecida, que depois recebeu do geólogo Décio a denominação de Cururu, foi fruto de uma irreverência. Em abril de 1968, estávamos ansiosos pela primeira visita do geólogo Robert L’ Esperance – um simpático franco-canadense, que vivera no Brasil como presidente da Meridional -, chefe do Tolbert em Pittsburgh. Escolhemos o melhor local para a visita: uma área com hematita compacta no sul da clareira N1. Na época o minério de ferro tipo lump estava mais na moda que o sinter feed.

Visita ao setor sul da clareira N1: Breno, Tolbert e L’Esperance

Mas o seu primeiro comentário nos deixou perplexos e desanimados:

 - O minério é muito bom, mas está muito longe...

Comentei com Tolbert, baixinho, que para chegar a essa conclusão não seria preciso viajar até Carajás, bastava olhar no mapa da região, em Pittsburgh. E logo, L’ Esperance acrescentou:

 - Não há uma área com clareira mais ao norte?...

Ante nossa resposta de que havia uma serra ao norte, com uma pequena clareira, mas com pequena possibilidade de jazida de ferro, completou:

- Por que não começaram por lá?...

 Assim, antes de realizarmos um rápido reconhecimento geológico dessa serra, ela foi batizada de Esquecida, ante a insinuação de L’ Esperance de que havíamos “esquecido” de fazer o trabalho.

A Serra da Estrela foi assim denominada a partir do mosaico de fotos do Projeto Araguaia. Situada ao norte da Serra do Rabo, onde a Serra Sul se inflexiona para o sul, e nas proximidades da serra em que foi descoberta a jazida de cobre do Cristalino, apresentava uma imagem fragmentada, com extensões em várias direções. Ao combinar um reconhecimento geológico, com um dos geólogos da equipe, não lembro se o Erasto ou o Ritter, foi usada como referência aquela serra em forma de estrela – e Estrela ficou o seu nome...

O mesmo ocorreu com a Serra da Costela, situada a sudeste da clareira N5. Chamava-nos a atenção, nos mosaicos e nos voos de helicóptero, aquela estrutura orientada, bem alcantilada, com ramificações e vegetação mais seca que nas demais áreas de floresta de Carajás, tendo o aspecto de um esqueleto... De esqueleto para costela foi um passo...

Reconhecimentos geológicos identificaram que toda área é coberta pelo arenito Gorotire (ou similar), daí advindo o estresse da vegetação no verão amazônico. Embora ela tivesse ficado abandonada, pela pequena importância geológica, acabou virando caso do interesse do Conselho de Segurança Nacional.

Tudo aconteceu pelo ano de 1983...  Estava caminhando em uma bela manhã, fazendo hora para seguir para o aeroporto e retornar a Belém, junto à antiga casa de hóspedes da clareira N5, onde havia a vila provisória para os empregados da implantação do Projeto Ferro Carajás.

O velho helicóptero da Amazônia Mineração, então integrado à Docegeo, Bell 2005 – o “sapão” tão utilizado na Guerra do Vietnã -, estava no heliponto próximo. O saudoso piloto Juarez, assim que me viu, chamou-me com um mapa na mão, logo dizendo:

 - Estou com uma equipe do governo para demarcar a área de direito real de uso da Vale... Estou achando os limites muito estranhos...

E foi logo me mostrando o mapa... Realmente era assustador. Havia participado, com a equipe da Vale, na determinação dos limites da área. O que estava vendo não correspondia ao que tinha sido decidido.

Imagem da Serra da Costela em mosaico fotográfico do Projeto Araguaia

A delimitação dessa área fora uma das exigências do Banco Mundial. Embora o empréstimo do Banco Mundial para o Projeto Ferro Carajás não fosse tão significativo, era muito importante pelo aval que dava ao projeto, facilitando a negociação com outras instituições financeiras.

Entre as exigências, que inclusive contribuíram para mudar a cultura da Vale na questão ecológica, estava a da criação de áreas de proteção ambiental e biológica, além da delimitação da Terra Indígena Xicrin do Cateté. Assim, foram criadas a Floresta Nacional do Tapirapé - Aquiri (FLONATA), a Floresta Nacional do Itacaiúnas, a Reserva Biológica do Tapirapé e a Floresta Nacional de Carajás (FLONACA), que corresponde à antiga área de direito real de uso dos tempos da Vale estatal.

 Mas o que estava no mapa me preocupava bastante e não sabia que atitude tomar. Na parte nordeste havia o destaque de uma área muito significativa, entre o igarapé Gelado – limite norte da demarcação -, e a estrada de acesso a Carajás. Poderia ser considerada como uma área nobre, entre a ferrovia e a rodovia, junto ao aeroporto, ao rio e à futura cidade de Parauapebas, e com terra roxa. Entre a Serra Norte e a Serra Sul havia um enclave, envolvendo toda a Serra da Costela.

Embora não tivesse suspeitas, temia a possibilidade de envolvimento de alguém da Vale, particularmente em relação à área próxima de Parauapebas, e não queria criar um problema interno. Assim, pedi ajuda a um aliado, que já havia dado valiosa colaboração em relação a algumas questões relativas à gestão do garimpo de Serra Pelada. O coronel Aníbal era uma simpática figura, um verdadeiro cavalheiro, que atuava como assessor da Vale, em São Luís, auxiliando na implantação do Projeto Ferro Carajás.

Imagem de satélite, com as áreas que seriam destacadas da

Floresta Nacional de Carajás           

As minhas preocupações foram bem entendidas pelo coronel Aníbal, que se prontificou em verificar o que havia acontecido junto a seus contatos em Brasília. Poucos dias depois recebi um telefonema esclarecedor. A “área nobre” tinha sido destacada pela ação de grupo político do Maranhão, e já havia sido providenciada a sua retificação. Mas, em relação à área da Serra da Costela, o problema era mais grave, pois envolvia programa do governo relacionado com questões de segurança nacional.

A questão de segurança nacional era a implantação de um programa de assentamento do GETAT – Grupo Executivo das Terras do Araguaia-Tocantins -, uma espécie de INCRA regional, que havia sido criada naqueles tempos do Projeto Grande Carajás.

Acrescentou que eu teria que ir a Brasília, para uma reunião com o general Danilo Venturini, então Ministro-Chefe do Conselho de Segurança Nacional, para esclarecer as minhas preocupações, e a objeção pelo destaque daquela área. Ainda tentei cair fora, comentando que ele teria muito mais qualificações para essa missão, mas não adiantou. Tranquilizou-me dizendo que me acompanharia...

Em Brasília, encontramos o diretor da CVRD, Clodoaldo Mota, que informou que também participaria da reunião. Entrar nas instalações do Conselho de Segurança Nacional, naqueles tempos de governo militar, era algo pelo menos inusitado para um simples mortal. Na sala de reunião surpreendi-me com a presença de alguns figurões políticos da época, como Nestor Jost, Secretário-Geral do Programa Grande Carajás e Iris Pedro de Oliveira, Presidente do GETAT. Também estavam presentes alguns técnicos do GETAT e um representante do SNI, o agente civil Cocentino, com quem já me relacionava na gestão de Serra Pelada.           

O coronel que nos recebeu informou que o general Venturini estava viajando e que ele o estava representando. Solicitou que o GETAT esclarecesse a razão daquele enclave.

Um dos técnicos informou que na programação do projeto Cedere I, situado entre a cidade de Parauapebas e a Serra Sul, na margem direita do Parauapebas, estava previsto o assentamento de 500 famílias. Entretanto, enquanto faziam algumas obras de infraestrutura, parte da área foi grilada. Assim, a solução mais simples seria construir uma ponte sobre o Parauapebas e estender o Cedere I na outra margem do rio. Caso isso não fosse feito, não seria atingida a meta de assentamento de 500 famílias.

Ainda tentei questionar se não era mais simples apenas expulsar os grileiros, mas a resposta foi de que o processo era muito complexo, por envolver questões políticas. Diante disso, o coronel solicitou que eu expusesse as minhas razões.

Argumentei que não julgava recomendável um programa de assentamento naquela área, pois o solo era muito arenoso e... - Fui bruscamente interrompido pelo coronel do Conselho:

- “Doutor” Breno... Se o senhor veio aqui para discutir detalhes, como tipo de solo, vou pedir que se retire da sala...

Olhei para o coronel Aníbal e obtive apenas um sorriso de simpatia... Ninguém na sala contestava o absurdo que fora dito... Já estava resolvido a “chutar o pau da barraca”, concluindo a minha explanação quer o coronel – que para mim já fora rebaixado a simples “milico” - quisesse ou não, mas o diretor Clodoaldo, bastante nervoso, segurou o meu braço dizendo:

 - Não fale nada...

Por instantes lamentei o que eu, quixotescamente, fora fazer lá. O silêncio que se seguiu foi quebrado pela intervenção do agente Cocentino:

- Coronel!... Não acho irrelevante discutir o tipo de solo em um programa de assentamento... Acho que deveríamos deixar o “Doutor” Breno concluir.

Assim, tive a oportunidade de expor os meus argumentos quanto à qualidade do solo, e ao risco que seria construir uma ponte e instalar uma “ponta de lança” na penetração da área, que deveria ser preservada. A proximidade de solo de melhor qualidade, do tipo terra roxa, nas cotas mais elevadas ao redor, certamente poderia estimular o abandono dos colonos de suas áreas arenosas, provocando a invasão de toda a área da reserva.

Felizmente, um dos técnicos do GETAT confirmou que, mesmo na margem direita do rio, tinham encontrado áreas muito arenosas, que iriam dificultar o assentamento.

Fiz a proposta de dar todo apoio da Docegeo, para que os técnicos do GETAT visitassem a área, para comprovar o que havia exposto.

Isso foi feito com o acompanhamento do assessor de segurança da Docegeo, o amigo Venâncio, que com o helicóptero da empresa, levou os técnicos do GETAT às várias clareiras que haviam sido abertas na Serra da Costela, para os trabalhos de reconhecimento geológico.

Com menos de uma semana tudo foi verificado e o enclave deixou de fazer parte dos planos do Cedere I. Não sei se em consequência disso, ou por já estar programado, foi implantado o Cedere II, ao sul da Serra Sul. A sede desse assentamento deu origem à progressista cidade de Canaã dos Carajás.

Serra da Costela preservada até hoje

Sempre que volto a Carajás, e tenho a oportunidade de rever as duas áreas preservadas, sinto a satisfação de ter cumprido a minha missão. Mas a felicidade é bem maior em relação à Serra da Costela, pois por ela a batalha foi bem mais renhida...

Mas sempre me questiono, qual teria sido o seu destino, se não tivesse havido aquele fortuito encontro com o piloto Juarez, naquela bela manhã de Carajás...

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Breno Augusto dos Santos

Publicado por:

Breno Augusto dos Santos

Breno Augusto dos Santos é um dos maiores geólogos da história do Brasil. Conhecido como "Descobridor de Carajás", é um profissional histórico e foi o grande vencedor do prêmio Pioneiros da Mineração 2024, entregue pela revista Brasil...

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