A descoberta do ferro de Carajás não provocou impacto apenas na United States Steel. O governo brasileiro e a própria Companhia Vale do Rio Doce também foram afetados.
Pouco tempo depois da revelação da descoberta, o governo brasileiro, através do Departamento Nacional da Produção Mineral - DNPM, atualmente ANM, resolveu enviar emissários para verificar do que se tratava, em março de 1968. Só que os emissários selecionados causaram espanto e revolta na Meridional. Em lugar de técnicos do DNPM, foram os experientes geólogos José Eduardo Machado, pioneiro da geologia na CVRD, e John M. A. Forman, da Comissão Nacional de Energia Nuclear.
Tolbert, em tempos de 007, tentou compensar a sua revolta, com ações que dificultassem o nível de informações geológicas da dupla.
Marcos Albuquerque Gomes, neto do famoso geólogo de Ouro Preto, Odorico Rodrigues Albuquerque, fora recém contratado para integrar a equipe de Carajás. No seu primeiro dia de trabalho, Tolbert perguntou-lhe se poderia viajar à noite para Belém. Marcos apenas perguntou para quê.
Tolbert respondeu-lhe que para levar uma carta ao Breno. Marcos, já em Belém, confidenciou-me que ficou espantado, imaginando qual seria a importância desse tal Breno, já que o Tolbert utilizava um geólogo para levar-lhe uma carta. Mas a importância não estava no destinatário, mas sim na rapidez e no sigilo.
Geólogo Marcos Albuquerque Gomes, durante o segundo reconhecimento geológico da
Serra Arqueada (22JUL1968)
Na carta, além de manifestar a sua revolta, Tolbert recomendava que fossem tomadas todas as providências, para que a dupla não tivesse acesso à galeria, que já havia atingido a zona de hematita rica.
Anfiteatro da clareira N1, onde, no patamar existente sob a canga, foi aberta a primeira galeria de pesquisa (30OUT1967)
Estava de folga em Belém, o que correspondia a trabalhar no escritório. No acampamento da N1, o geólogo Peter Rideg estava respondendo pela coordenação dos trabalhos. Rideg há pouco tempo passara a fazer parte da equipe de Carajás. Brasileiro, filho de pais russos, formara-se em Geologia nos Estados Unidos da América. Além de excelente profissional, era um atleta nato. Nunca havia jogado futebol, mas logo tornou-se o melhor goleiro das “peladas” vespertinas de Carajás.
Como havia a necessidade de se manter sigilo, foi necessário um diálogo surreal pela radiocomunicação:
- Amanhã vou chegar aí, com dois representantes do DNPM, sendo um deles geólogo da CVRD. Pretendem avaliar a descoberta do ferro. É uma pena que o temporal, que caiu ontem, tenha destruído a escada de acesso à galeria. Assim não vai ser possível visitá-la.
- Como?... Temporal?...
- Sim. Você não informou que houve um temporal, que fez bastantes estragos na N1, inclusive destruindo a escada com a ventania.
- Ah! Sim... Já entendi... A destruição do temporal...
No dia seguinte viajei com a dupla de geólogos bem conhecidos. Machado era mais íntimo, pois havíamos sido contemporâneos na Geologia da Glete, na USP. Ele na primeira turma, e eu na quarta.
Geólogo Peter Rideg na escada de acesso à galeria de pesquisa (17FEV1968)
Início da galeria de pesquisa de Carajás (04DEZ1967) e primeira imagem da hematita rica existente sob a canga (17FEV1968)
Logo na chegada, Rideg confidenciou-me que tudo havia sido providenciado.
Por razões que desconheço, a dupla sabia da existência da galeria de pesquisa. E quis visitá-la. A distância era de cerca de 3 quilômetros, a partir do acampamento, até atingir o local da galeria, em um morrote. Só quem caminhou sobre a canga conhece as dificuldades.
Com um pouco de mau-caratismo, escalei o atleta Rideg para acompanhá-los, com a recomendação de passo acelerado. E ainda havia o problema de se atingir o patamar da galeria, sem a escada de troncos. Tínhamos no acampamento uma escada de alpinista, com corda e degraus de alumínio. Alguém, do escritório do Rio de Janeiro, achou que ela poderia substituir a de troncos. Mas o seu uso exigia um certo treinamento, pois, para os aprendizes, às vezes, a escada adotava uma posição horizontal no meio da descida. Essa escada foi colocada à disposição da dupla.
No final da tarde o trio retornou. Rideg, suado, vermelho do sol e desanimado, me confidenciou:
- O Forman desistiu da caminhada no início da subida, mas o Machado foi até o topo e desceu na escada de alumínio.
O segredo da hematita rica acabou sendo revelado...
O nosso contrato com a Helitec havia sido cancelado, devido às limitações operacionais dos velhos helicópteros Bell G, que tantos bons trabalhos nos prestaram. Os helicópteros Hughes 300, da Votec, ainda não haviam chegado. O DNPM havia contratado a Helitec, para o apoio da visita com helicópteros.
Prevenimos sobre os riscos de voar com tais helicópteros, ainda mais por estarem paralisados por algum tempo. Mesmo assim, partiram para o reconhecimento da Clareira S11. Algum tempo depois, voltou apenas um helicóptero, com a informação de que o helicóptero, onde estava o Forman, havia errado o local do pouso, na aproximação, e se danificado. Felizmente ninguém se feriu. Machado apenas comentou que podia haver muito ferro, mas ele tinha uma família para cuidar, cancelando o restante da visita.
Durante o jantar ainda aprontei uma “pegadinha”. Forman, tinha o hábito de começar todos os questionamentos por “because?” ... Durante o jantar perguntou como era a geologia de Buritirama. Como também havia orientação do Tolbert para não revelar o manganês de Buritirama, apenas respondi de maneira enigmática, sem dizer nada:
- Buritirama é semelhante, mas com maior grau de metamorfismo.
Machado percebeu a cilada e comentou:
- Não entendi nada.
Mas Forman logo o tranquilizou:
- Entendi... Depois te explicarei...
No relatório, que apresentaram ao DNPM, Buritirama aparece como depósito de minério de ferro. No mesmo relatório foi registrada a possibilidade de um potencial de centenas de milhões de toneladas, bastante inferior às previsões que o Tolbert apresentou à United States Steel, logo na sua primeira visita, de 2 a 35 bilhões de toneladas.
Dessa forma, tive que cumprir a missão dada por Tolbert, de jogar contra a Vale, e contra dois importantes profissionais da geologia do Brasil, além de bons amigos.
(*) Em parte, esta crônica foi escrita para homenagear três amigos: os geólogos Peter Rideg, Marcos Albuquerque Gomes e José Eduardo Machado, que muito contribuíram para o conhecimento geológico do Brasil, e prematuramente nos deixaram.
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