Está entregue. Após um ano do massacre da Ponte JK, entre Estreito e Aguiarnópolis, a estrutura foi reconstruída e entregue à população, com a presença de autoridades como os governadores do Maranhão e do Tocantins, além do ministro dos Transportes, Renan Filho. O que chama a atenção no evento não é apenas o fato de a inauguração ter sido marcada exatamente na mesma data em que a tragédia ocorreu, mas a postura aparente e vergonhosa do ministro.
Em vez de adotar um tom sério, como forma de reconhecer a dor das famílias das 17 vítimas que morreram na tragédia, o ministro, em tom animado, comemorou nas redes sociais: “Hoje é dia de festa”. Na publicação no Instagram, celebrou a entrega da estrutura e ainda desejou boas festas: “Queria aproveitar para desejar Feliz Natal a todo o povo aqui de Estreito, de Aguiarnópolis, do Maranhão, do Tocantins. Está entregue a Ponte JK”.
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Palavras que, embora positivas à primeira vista, no contexto em que foram proferidas retratam uma imagem de insensibilidade. Vale lembrar que 17 pessoas morreram em um dos maiores casos de negligência do poder público da história recente do Brasil. Por anos, a Ponte JK necessitava de reestruturação, e o governo brasileiro nada fez, nada reagiu.
As comemorações seguiram. Palmas e gritos de celebração ecoaram enquanto a travessia entre Tocantins e Maranhão foi retomada. Ao fundo, porém, ainda é possível ouvir o choro e a dor de inúmeras pessoas, famílias que não terão o Natal feliz que o ministro tanto deseja, porque essas vozes foram ignoradas. As famílias não foram indenizadas, não houve atribuição de culpa e ninguém foi responsabilizado pelo ocorrido.
Enquanto jornalista com atuação no Pará, conheci pessoalmente duas das vítimas dessa tragédia: o casal Ailson Gomes Carneiro e Elisângela Santos das Chagas. Afetuosos, simpáticos e muito queridos na cidade onde residiam, Novo Repartimento, no sudeste do estado. Há exatamente um ano, ao tomar conhecimento do ocorrido com ambos, fiquei devastado, pois havia conversado com eles poucos dias antes da tragédia. Ao compreender a dimensão do que havia acontecido, ficou evidente que se tratava de um massacre envolvendo 18 pessoas, que poderia e deveria ter sido evitado.
No fim, a entrega da Ponte JK não apaga a tragédia, nem devolve vidas interrompidas por uma negligência anunciada. Obras se inauguram, discursos passam e autoridades seguem agendas, mas a dor das famílias permanece, silenciosa e sem respostas. Enquanto não houver responsabilização, reparação e respeito à memória das vítimas, qualquer celebração será incompleta e qualquer “dia de festa” soará como um lembrete amargo de que o poder público falhou quando mais precisava agir.
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