Havíamos perdido a primeira batalha. Carajás era muito grande e o seu controle transformou-se em fonte de poder. Os representantes americanos na diretoria da Meridional foram substituídos, e o novo presidente — Mr. Hudson, casado com uma ex-miss Venezuela — não concordou que a pesquisa do minério de ferro permanecesse com gestão independente. Tudo começara com o "Brazilian Exploration Program (BEP), onde o comando de Tolbert utilizava apenas o apoio administrativo da subsidiaria brasileira — Companhia Meridional de Mineração — reportando-se diretamente a United States Steel, em Pittsburgh.
Tolbert, se quisesse, poderia continuar "brincando de geologia", procurando manganês com os seus "meninos brasileiros". Mas, a pesquisa do minério de ferro tinha que ficar sob a direção do presidente da Meridional. A aparente vitória dos novos donos do projeto era, na verdade, o começo da derrota da United States Steel no Brasil. Isso sempre acontece quando a ambição dos que comandam supera os objetivos da missão.
Outras batalhas ainda viriam e, hoje, é difícil saber quem perdeu ou quem venceu... Muitas das derrotas do passado transformaram-se em vitórias no futuro. Tolbert ficou com sua autonomia cada vez mais limitada e sua equipe gradativamente desmotivada. Em maio de 1970, não resistiu às pressões e demitiu-se. O programa de geologia da Meridional foi definhando aos poucos até fechar. Em 1977, a United States Steel, ainda sob a mesma direção, rompe sua associação com a Companhia Vale do Rio Doce, saindo da Amazônia Mineração, e encerra suas atividades de mineração no Brasil, fechando a Meridional. Por outro lado, Tolbert e sua equipe, a partir de 1971, começam a participar da organização do programa de geologia da CVRD, que deu origem a Docegeo. As atividades desenvolvidas por essa empresa têm correspondido a um dos programas de geologia com maior sucesso em todo mundo.
Entre as palmeiras de babaçu, surge a clareira do acampamento do Deserto,
em Buritirama
Mas a primeira derrota machucou bastante. Estávamos no final de 1968, curtindo ainda o sucesso das descobertas — do ferro de Carajás e do manganês de Buritirama — e tínhamos que tomar uma decisão difícil: ou deixar o professor e amigo Tolbert, abandonando-o na sua luta, ou não participar do desafio da pesquisa do ferro de Carajás.
Dos geólogos que trabalhavam em Carajás, José Thadeu Teixeira, Octávio Ferreira da Silva e Marcos Albuquerque Gomes acompanharam a minha decisão, de renunciar ao relativo conforto do acampamento da clareira Nl. A equipe transferiu-se para uma nova base de apoio dos trabalhos de geologia, junto à jazida de Buritirama, na margem esquerda do Itacaiúnas.
Primeiros geólogos da “República Livre de Buritirama”:
Thadeu, Octávio, Marcos e Breno
O geólogo Tremaine, que possuía as qualidades contraditórias da classe conservadora americana dos anos 60, assumiu a chefia da pesquisa do minério de ferro, e sob minha responsabilidade restou apenas o programa de exploração geológica. Tremaine tinha excelente formação educacional e profissional, um grande caráter, mas quase sempre a sua ingenuidade o traia: queria ser autoritário, mas a falta de liderança o transformava num chefe bastante fraco.
Atuou como protagonista de um dos casos que passaram para o folclore de Carajás. Um dos problemas, que tivemos que resolver no início das sondagens, foi o das caixas d'água. Não tínhamos como transportar suas estruturas de cimento ou aço. Depois de muita discussão, procurei a fábrica de piscinas plásticas Lídice, em São Paulo, onde a solução foi encontrada. Informaram não ter dificuldade para fazer um revestimento plástico em qualquer forma, mas que seria necessário um suporte externo resistente, que poderia ser um simples buraco escavado no solo — porém isso era impossível na dura canga que reveste as clareiras onde estão as jazidas de ferro.
Não demorou em que surgisse uma boa ideia: construir, na pequena carpintaria de Carajás, uma caixa d'água de madeira, que seria revestida pelo plástico. Decidiu-se pela forma hexagonal, devido à maior facilidade de construção e maior resistência à pressão da água. A estrutura seria totalmente desmontável, com seus lados encaixados entre si e na base hexagonal, suportados por um cabo de aço. As partes do conjunto poderiam ser facilmente transportadas pelas picadas da clareira, quer pela velha Toyota, quer pela própria equipe.
No dia em que tudo ficou pronto, os carpinteiros já se preparavam para desmontá-la para o transporte, quando Tremaine, que acabara de assumir a chefia, ordenou:
- Não desmontar!... Sonda tem que iniciar agora!... Não perder tempo!... Levar no helicóptero!...
Ainda tentamos argumentar que não daria certo e que apenas um dia seria perdido na desmontagem, transporte e nova montagem. Os pilotos também temiam a operação, pois estava um dia chuvoso e ventava um pouco, o que poderia causar problemas com a carga suspensa. Mas Tremaine não aceitou:
- Eu ser o chefe... Eu decido...
Mal o helicóptero ganhou altura, ao fazer a curva sobre a pista no rumo da sonda, aquele grande tubo hexagonal começou a sofrer a influência dos ventos, atuando como um grande pêndulo. A sua oscilação foi gradativamente crescendo, colocando em risco a estabilidade do helicóptero, e o piloto não teve alternativa a não ser soltar o cabo que sustentava a caixa.
Mal o helicóptero levantou voo, o tubo hexagonal começou a oscilar
Houve uma risada geral, ante a vitória do bom senso sobre o autoritarismo. O piloto, quando retornou ao acampamento, ainda comentou:
- Só dá para ser aproveitada para fazer palitos de fósforo.
O burburinho geral só não teve a participação de Tremaine — encabulado no seu canto — e dos carpinteiros, que com tristeza viram seu trabalho paciente e cuidadoso, de várias semanas, ser destruído em poucos minutos. Não se perdeu apenas um dia, mas algumas semanas na construção da nova caixa.
Aos poucos, as mágoas dos rejeitados foram sendo superadas e chegou o grande dia da inauguração do novo acampamento. A festa teria que ser em grande estilo, para que não houvesse sinal da derrota, com churrasco e cerveja a vontade. Tolbert, que mais que todos tinha motivo para estar revoltado, deu apoio total para a nossa comemoração. Com certo ar de vingança, fizemos o transbordo em N1, do avião para os helicópteros, da carne e da cerveja. Além da nossa equipe, apenas os pilotos que nos acompanhavam desde o início, e que indiretamente também se julgavam injustiçados, foram convidados.
O churrasco começou no fim da tarde, no acampamento provisório
O churrasco começou no fim da tarde, na beira do Itacaiúnas, onde havia um acampamento provisório, junto ao heliponto. Por influência da cerveja e da emoção reprimida pelos acontecimentos ainda recentes, começamos a discursar, enaltecendo o valor de nossa equipe. Quando chegou a sua vez, Thadeu exagerou um pouco na confraternização:
- Vocês podem ser braçais, mas é como se fossem meus irmãos...
Mas não completou a frase. Quem estava mais perto, talvez o Aguiar, atirou um punhado de farinha na cara do orador.
Foi como uma senha para dar início a uma batalha campal, utilizando farinha de mandioca e depois latas com água. Espontaneamente, sem escolha prévia alguma, a equipe dividiu-se em dois grupos. Minha turma correu para a clareira do novo acampamento e os "inimigos" permaneceram no heliponto. A picada que unia as duas clareiras era o território das emboscadas com latas d'água.
Ninguém ficou sabendo quem foi o primeiro, mas aos poucos a água foi substituída por cocos de babaçu. Cada grupo escolheu as suas trincheiras e, felizmente, nenhum de nós foi atingido. No início da madrugada, devido ao acidente de um braçal com o seu próprio terçado, a "guerra" foi encerrada.
Pouco a pouco, ainda temerosos, fomos nos levantando detrás das proteções dos troncos derrubados de babaçu. Quando tudo estava calmo, rumamos para o único tapiri do novo acampamento e, triste surpresa: no calor da batalha, o adversário havia cruzado as nossas linhas e encharcado totalmente as nossas redes.
No dia seguinte, retornamos ao acampamento de N1 para buscar as últimas coisas. Quando seguia para o helicóptero, Tremaine me chamou:
- Favor levar os dois cachorros...
Troncos de babaçu serviram de trincheiras
Referia-se aos mascotes do acampamento, Leão e Leoa.
- Não posso fazer isso sem falar com o Ritter, que é quem cuida deles. Se ele concordar quando voltar da folga, não haverá problema para levar os cachorros.
- Eu ser o chefe do Ritter e eu decido — insistiu, para mostrar autoridade.
- Tudo bem... Você é o chefe do Ritter, mas não é o meu... Os cachorros ficam até autorização do Ritter... Retruquei indignado, seguindo para o helicóptero.
Com um rasante dos dois Jet-Rangers - que pertenciam à equipe da exploração geológica — nos despedimos do velho acampamento, que havíamos construído com tanto carinho e tantos sonhos. Foi a última vez que lá estive. Anos depois, quando retornei ao local, o mesmo já havia sido destruído...
Tempos bons aqueles... Nossas mágoas e revoltas podiam ser facilmente superadas com a simples instalação da "República Livre de Buritirama"...
* Publicada originalmente na Revista Brasil Mineral e no livro Pelas Pedras do Caminho Mineral, da editora Signus
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