Nos primeiros tempos de Carajás, a vida comunitária no acampamento de N1 tinha características bem particulares. Cerca de 250 homens, a maioria braçais, viviam em completo isolamento, sem mulher e sem bebida, pouco participando, ou mesmo sabendo do que ocorria no Brasil de verdade, do lado de fora.
Não tínhamos conhecimento imediato das transformações políticas, sociais e comportamentais que explodiam no mundo. O ano de 1968, particularmente fértil em mudanças — o movimento estudantil de Paris e o início do período mais repressor da ditadura brasileira —, para nós representava apenas um período de muito trabalho, de implantação do embrião — sem que ainda o soubéssemos — do que viria a ser a mineração em Carajás. Não éramos alienados — as poucas notícias de que tomávamos conhecimento através do radio ou dos jornais, sempre atrasados, nos enchiam de ansiedade e preocupação —, mas estávamos afastados de todos e de tudo.
No acampamento sempre havia um rádio ligado, geralmente na cozinha, desde a primeira luz do dia — acordávamos com os recados do "regatão". Era o nosso contato com o exterior, pois além dele apenas a radiofonia a serviço da empresa e a correspondência familiar, que dependia dos raros voos semanais para Belém. Pelos seus poucos noticiários tínhamos alguma noção do que ocorria na realidade de fora, mas principalmente através dele é que cantávamos com o Brasil e o mundo. Com as músicas da época deixávamo-nos levar com os nossos sonhos.
Caetano e Gil surgiam na cultura brasileira e, antes da repressão que viria, nos mostravam a vida com "Alegria, Alegria" e nos conduziam por um "Domingo no Parque". Chico Buarque nos alertava para a “Roda Viva" — e como roda —, nos fazia sonhar com "Carolina", e sem deixar-nos esquecer de que ainda eram tempos para se ver a "Banda" passar. Jair Rodrigues, com "Disparada" e "Upa Negrinho”, nos apresentava um Brasil relativamente ingênuo, que começava a desaparecer, tendo como parceria uma moça simples e até desengonçada — a doce Elis, que se tomaria a grande musa brasileira antes de seu trágico desaparecimento. Paulinho da Viola nos lembrava dos "rios que passavam em nossas vidas", numa época ainda bem mais tranquila, onde o único "Arrastão" que nos sensibilizava era o de Edu Lobo.
Entre nós sempre havia alguém que, por amores incompreendidos, se julgava o "Bom Rapaz" de Wanderley Cardoso. Os de São Paulo sentiam mais saudades da terra e da família, ao rodar com Roberto Carlos pelas "Curvas da Estrada de Santos". A maioria — como era comum — não possuía carro, e não ousava sonhar com um "Mustang cor de sangue", mas apenas com um "Corcel cor de mel". As denúncias de Vandré, com "Hora de Lutar" e "Para Não Dizer Que Não Falei de Flores", já sob censura, pouco foram ouvidas...
Mary Hopkin nos chamava a atenção — e nós não percebíamos — de que "Those Were The Days", enquanto os Beatles nos embalavam com "Ob-la-di Ob-la-da" e "Goodbye". “Era um rapaz que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones” nos mostrava o absurdo da Guerra do Vietnã. Mas o que predominava nos sons do acampamento eram as canções bregas de Waldick Soriano, que no ambiente simples e rude em que vivíamos, com nossos desejos e paixões, longe da mulher amada — com amores correspondidos ou não —, adquiriam um forte significado.
Fim de tarde na “pracinha da fofoca” na base N1 – Auxiliar de administração Edwar,
mecânicos Ildefonso, com o macaco Chico. e Campos, e piloto de helicóptero Aguiar.
Nem toda a equipe permanecia em N1, embora aí se realizasse a maior parte do trabalho: mapeamento geológico preliminar — depois estendido para as demais clareiras —, levantamento topográfico, sondagem, abertura das primeiras galerias, construção da pista de pouso e da barragem da lagoa para abastecimento do acampamento. Era também a base dos helicópteros, com a sua equipe de pilotos e mecânicos.
Tranquilidade do final de tarde na “pracinha da fofoca” na base N1
Administrador e auxiliar de enfermagem Otávio
Além do grupo que pesquisava em Buritirama, havia o pessoal de exploração geológica, que dava prosseguimento aos trabalhos de reconhecimento regional, apesar de já terem sido concretizadas as descobertas do ferro e do manganês. Mas N1 era, na época, a capital de Carajás, para onde convergiam todos os grupos para as mudanças de área ou para as tão esperadas folgas de campo. Apesar do isolamento e das condições de trabalho, com riscos diários e falta de conforto, o ambiente era de muito companheirismo, sem grandes conflitos. Acordava-se pelas 6 horas, partia-se para as frentes de trabalho entre 7 e 8 e, por volta das 4 horas, os grupos começavam a retomar.
Torre da caixa d’água e chuveiros, ao crepúsculo do acampamento N1
Alguns eram fregueses da pelada diária, no campo de piçarra, onde mais importante que o gol era evitar as quedas — sempre com escoriações — e das bolas divididas — ou passava a bola ou o jogador. O vôlei também era uma alternativa. Outros seguiam diretamente para o banho — os que aguardavam distraiam-se atirando piçarra sobre o telhado de alumínio, para perturbar e apressar o banhista da vez.
A hora do rancho, no início do Projeto Carajás
As noites, quando a temperatura se tornava particularmente agradável, eram calmas e relaxantes — mas era o momento que mais sentíamos a solidão e a falta da família. Após o banho, enquanto aguardava-se o jantar, alguns se reuniam na pracinha da fofoca para as mentiras diárias ou para os desabafos existenciais. Os jantares eram sempre exagerados, com mais pratos que os necessários, para que todos os gostos pudessem ser atendidos. Devido à dificuldade em se ter frutas frescas, tinha-se por sobremesa, quase que invariavelmente, pudim de leite condensado ou fruta em calda, sempre acompanhada por creme de leite.
Após o jantar, alguns dos quatro geólogos ainda encontravam energia para preparar mapas ou relatórios. Outros se ocupavam com a leitura ou com o carteado. A peãozada dividia-se em pequenos grupos para conversar, jogar dama, dominó ou baralho. Mas logo o cansaço predominava e, por volta das 11 horas, o silêncio já era quase total — podiam-se ouvir todos os ruídos da selva e da noite. O sexo solitário não era tão solitário assim, e alguns companheiros afirmaram ter visto barracos oscilarem ante os movimentos sincronizados das redes. Houve até o caso de um geólogo mais desinibido, que conseguiu o desejado relaxamento dentro de seu saco de dormir, enquanto conversava tranquilamente com os seus colegas. Ao final, ainda questionou:
- Vocês perceberam alguma coisa?...
Assim corriam os nossos dias, onde a falta de rotina era a rotina diária. Os acontecimentos sociais marcantes eram as visitas do Rio de Janeiro ou de Pittsburgh, ou as nossas próprias saídas de folga.
Tínhamos um cozinheiro muito bom, que se esmerava na preparação dos pratos, principalmente quando recebíamos convidados. Ao longo do tempo, convivemos com alguns cozinheiros, e também enfermeiros, não muito fanáticos, mas nunca houve preconceito contra a diversidade sexual. Esse não levava jeito: estava mais para o másculo jogador Mario Sergio que para Clodovil. Foi com surpresa que recebi a recomendação de Otávio, misto de enfermeiro e administrador:
- Doutor, temos que mandar o João embora...
- Mas por quê?... O serviço dele é tão bom!...
- O pessoal tá reclamando que toda noite tem fila na rede dele, para uma sessão de massagem relaxante, e que não fica bem a mão, que alisa tantas "rolas", ser a mesma que descasca batata e lava o arroz...
Custei a acreditar. Apesar da pouca idade, estava acostumado a liderar a equipe nas questões de trabalho, mas essa situação era inusitada. Na noite seguinte, ainda temeroso por cometer alguma injustiça, chamei-o para uma conversa, que começou cheia de rodeios:
- João, vamos ter que mandar você embora!...
- Mas por que, dotô?...
- Porque não tem jeito. Procure entender — respondi, com medo de vacilar.
- Mas o que eu fiz?... O senhor não tá gostando da comida?...
- Não é esse o problema...
E assim prosseguimos, por algum tempo, nessa conversa de "cerca Lourenço", até que foi dele a vacilada:
- Dotô, eu juro por Nossa Senhora como não faço mais!...
Tempos depois o encontrei, alegre e sem ressentimentos, com um carrinho de sorvete Gelar, no Círio de Nazaré, em Belém do Pará...
* Publicada originalmente na Revista Brasil Mineral e no livro Pelas Pedras do Caminho Mineral, da editora Signus
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