Quando recebi o convite para publicar neste espaço, a primeira coisa que me veio à mente foi: o que vou escrever nesta primeira crônica? Já escrevi sobre tanta coisa, ainda assim fiquei sem assunto. Aliás, a falta de assunto rende boas crônicas. Afinal, muitos cronistas se utilizam desse recurso quando a inspiração falta. Porém, este não é o caso. Não quero desperdiçar um espaço onde poderiam ser ditas coisas importantes.
E, por falar em coisas importantes, há assuntos que são, de fato, inesgotáveis: política, futebol, religião… Mas, além deles, existem outros temas que são mais do que assuntos triviais. A banalidade dos assuntos está nos olhos de quem vê e nos ouvidos de quem ouve.
Dito isso, posso provar que a banalidade do cotidiano não é tão banal assim. Por trás das coisas simples do dia a dia, está a vida que acontece das mais variadas maneiras.
Outro dia, precisava escrever sobre algo interessante, mas nada novo me vinha à cabeça. Enquanto o assunto não chegava, continuei minha rotina de "estudante eterno". Sim, estudante eterno, porque nunca parei de ler, de estudar — e esse hábito se tornou inegociável. No dia seguinte, ainda sem assunto, fui tomar café em uma padaria a cinco quadras de casa. No percurso, fui com olhos e ouvidos atentos à procura de algo incomum. Fui como um flâneur, aquele que vagueia sem rumo por uma cidade em busca de alguém ou de alguma coisa.
Peguei meu café de sempre, sentei no cantinho, como sempre faço nos lugares por onde passo — seja na sala de aula, em restaurantes ou padarias. Acho que me sinto mais protegido ali. Talvez seja coisa de gente quieta ou, quem sabe, insegura.
Quase terminando meu café, entraram duas senhoras conversando e se sentaram à mesa ao lado. Uma delas contava uma história sobre o enterro do marido. Um enterro pra lá de incomum, um verdadeiro desastre: enterro errado, troca de corpo, desenterro… Pronto. Já tinha minha história para escrever. Quem sabe conto essa história aqui para vocês.
É sobre isso que quero compartilhar aqui: a vida comum. As coisas aparentemente sem valor. Coisas simples que deixamos de lado por pressa, por viver no automático. Das memórias afetivas, dos valores humanos, da leveza da vida — embora nem sempre ela seja tão leve assim.
Até a próxima.
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