Com a chegada do período de estiagem, o aumento das queimadas acende um alerta que vai muito além dos impactos à natureza. A fumaça gerada pelos incêndios compromete severamente a qualidade do ar, tornando-se um gatilho para o surgimento e agravamento de diversas doenças respiratórias. O cenário exige atenção redobrada, especialmente com os grupos mais vulneráveis: crianças, idosos, gestantes e portadores de condições crônicas.
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A inalação da fumaça carrega partículas tóxicas que agridem o corpo de forma imediata. Sintomas como irritação nos olhos (lacrimejamento e coceira), nariz e garganta, além de tosse persistente, falta de ar, rouquidão e pele ressecada são reações frequentes à poluição do ar.
Para quem já convive com asma, bronquite, rinite ou Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), os efeitos podem ser severos. Além do mal-estar imediato, a exposição contínua reduz as defesas do organismo e favorece infecções respiratórias, gerando um pico de consultas médicas e internações que sobrecarrega o sistema de saúde de forma semelhante ao que ocorre com os vírus sazonais no inverno amazônico.
Marília Sandes, moradora do bairro Jardim Europa, convive diariamente com a asma e sente o impacto direto dessa época do ano.
“Eu tenho asma e faço o uso da minha bombinha, mas no período das queimadas eu tenho que intensificar esse uso, pois a necessidade aumenta. Me dá tosse seca, eu tenho rinite também, espirro bastante e acaba que eu tenho que ficar em casa trancada, com portas e janelas fechadas porque me incomoda bastante.”, explicou.
As crianças estão entre os grupos mais vulneráveis aos efeitos da fumaça. Flávia Cantídia, mãe de duas filhas com problemas respiratórios, viveu momentos de angústia recentemente com a caçula, de apenas um ano, que desenvolveu um início de pneumonia devido à má qualidade do ar.
“É assustador você ver sua filha puxando ar, procurando ar, é algo que assusta a gente. A nossa última alternativa, foi o uso do antibiótico, porque se ela não reagisse de um dia para o outro, nós teríamos que interná-la. Felizmente ela começou a reagir no outro dia, mas durante todo esse período tivemos que fazer fisioterapia respiratória.”, relatou a mãe.
Preocupada, a mãe redobrou os cuidados em casa e adotou medidas rigorosas para amenizar os efeitos da fumaça e da baixa umidade.
“Estamos tentando o máximo possível evitar o contato com a fumaça. Deixamos a casa fechada, evitando qualquer entrada de ar externo. Arejar a casa, só se for no início da manhã, porque já no final da tarde a fumaça já está intensa, e não conseguimos abrir mais a casa. Também compramos um umidificador de ar para o ambiente.”, destacou.
E ela faz um alerta, “não há necessidade do uso do fogo. É preferível pedir para alguém retirar o lixo e entulho, porque tantos anos convivendo com queimadas te mostram que é um prejuízo para nossa saúde e para o meio ambiente.”, alertou.
Douglas Pacheco, coordenador de Vigilância em Saúde (COVIS), explica a ação da fumaça no organismo humano: ”Quando inalada, a fumaça entra nas vias aéreas superiores e prejudica os pulmões, causando dificuldades respiratórias e coriza. Embora afete os olhos e a pele, o sistema respiratório é o principal prejudicado.”, explica.

Para minimizar os danos durante os dias críticos de poluição e calor, o coordenador do COVIS recomenda adotar medidas práticas de proteção:
Hidratação constante: Beber água ao longo do dia é fundamental. A hidratação ajuda a diluir e fluidificar as secreções nas vias aéreas causadas pela fumaça, facilitando a eliminação e fortalecendo o sistema imunológico.
Barreira contra a fumaça: Ao notar focos de incêndio por perto, feche portas e janelas para evitar que o ar poluído entre na residência. Mantenha os filtros do aparelho ar condicionado sempre limpos para garantir que ele consiga reter as impurezas e circular um ar mais puro no ambiente.
A orientação da Vigilância em Saúde é monitorar os sintomas e buscar o atendimento correto para cada nível de gravidade.
Casos leves e moderados: Sintomas como inflamação na garganta, rouquidão, coriza ou dificuldade respiratória leve devem ser avaliados na Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima.
Casos graves: Se houver falta de ar severa ou desconforto respiratório agudo, a recomendação é dirigir-se imediatamente ao Hospital Municipal Daniel Gonçalves.
Campanha de Conscientização: “Antes do Fogo Vem o Abandono”
Somente em 2025, a Brigada Municipal de Meio Ambiente atendeu 247 ocorrências de focos de queimadas, com maior concentração de registros nos meses de julho, (81 registro) e agosto com (76), período em que a estiagem se intensifica.

Como parte das ações de enfrentamento, a Prefeitura lançou a campanha “Antes do Fogo Vem o Abandono”. A iniciativa busca conscientizar os moradores de que prevenir queimadas em terrenos, áreas de vegetação, e no descarte de resíduos é, antes de tudo, uma forma de proteger a saúde coletiva e o meio ambiente.
A campanha também ocorre em um momento de atenção para as condições climáticas previstas para os próximos meses. De acordo com as previsões, a possível ocorrência do fenômeno El Niño poderá intensificar a estiagem em parte da região, favorecendo a propagação de incêndios florestais e queimadas.
A Secretaria Municipal de Meio Ambiente (SEMMA), reforça que a manutenção e limpeza dos lotes são de responsabilidade direta de seus proprietários. Caso seja identificada a falta de conservação do terreno ou a ocorrência de queimadas, o dono do imóvel poderá ser autuado pela fiscalização ambiental.
As penalidades são baseadas na Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/98), prevendo multas que podem chegar a R$ 2.426,00, além de possíveis sanções penais.
O fator climático: El Niño 2026
O El Niño é a fase quente do fenômeno El Niño-Oscilação Sul (ENOS) e caracteriza-se pelo aquecimento anômalo das águas superficiais do Oceano Pacífico equatorial. Esse aquecimento altera os padrões de circulação atmosférica e o transporte de umidade, influenciando as condições climáticas globalmente.
As previsões meteorológicas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), indicam que o fenômeno El Niño deve influenciar o clima durante o segundo semestre de 2026. No sul do Pará, a tendência é de redução das chuvas, temperaturas mais elevadas e aumento do período de estiagem, condições que favorecem a propagação de queimadas e incêndios florestais. As previsões apontam ainda que o fenômeno tem potencial para atingir intensidade forte a muito forte.
Por isso, órgãos ambientais e de saúde reforçam a importância da prevenção e do cuidado imediato diante de sintomas persistentes.
Denúncias
A população pode colaborar ativamente denunciando focos de incêndio ou queimadas irregulares de forma totalmente anônima.
Telefone de contato: (94) 99126-7492
Fonte/Créditos: Ascom- Canaã dos Carajás
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