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Antes de se tornar uma imensa cava ocupada por milhares de homens, Serra Pelada foi o destino de uma corrida alimentada por descobertas minerais, notícias de reservas extraordinárias e sonhos de enriquecimento. O geólogo Breno dos Santos, responsável pela descoberta do ferro de Carajás, acompanhou essa transformação e participou, como representante da Vale, da intervenção do governo federal no garimpo, em 17 de maio de 1980.
As fotografias de seu acervo que acompanham esta reportagem registram os preparativos em Marabá e o cenário encontrado em Serra Pelada naquela ocasião. Para compreender como milhares de garimpeiros chegaram até ali, porém, Breno volta às atividades que antecederam a febre do ouro.
“Historicamente, a busca de diamantes foi a primeira atividade garimpeira no sudeste do Pará”, conta, situando a exploração no rio Tocantins, nas proximidades de Marabá. Em meados do século passado, essa atividade já estava em declínio.
Os maiores aglomerados humanos surgiram na década de 1970, com a exploração de cassiterita nas proximidades do rio Xingu, nos aluviões dos granitos estaníferos Velho Guilherme, Mocambo e Antonio Vicente. Isolados, esses garimpos dependiam de pequenos aviões para receber trabalhadores e suprimentos.
“O maior garimpo ocorreu no Antonio Vicente, onde cerca de 10 mil homens estiveram em atividade na segunda metade da década de 70, e cerca de 40 monomotores faziam a ponte aérea até Conceição do Araguaia.”
A descoberta que atraiu os garimpeiros
Em 1976, geólogos da DOCEGEO, empresa da Vale, descobriram ouro na Serra das Andorinhas, junto à nascente cidade de Rio Maria. Ao mesmo tempo, a abertura da rodovia entre a antiga PA-150 e São Félix do Xingu começava a transformar a ocupação da região.
Breno relata que migrantes foram atraídos para o povoado do Entroncamento, atual Xinguara, que surgia na junção das duas estradas. A promessa de lotes de terra ajudava a engrossar o eleitorado para o pleito de 1976.
“Nem todos conseguiram”, observa.
Entre os recém-chegados havia homens com experiência em garimpo. Eles começaram a procurar ouro nos pequenos igarapés cortados pela PA-150, entre Xinguara e Rio Maria.
“Como era de se esperar, em 1977 redescobriram o ouro de Andorinhas.”
Temendo que os garimpeiros alcançassem as ocorrências de ouro primário da serra, a Vale procurou os órgãos de segurança em Brasília. Segundo Breno, esse contato era comum durante o governo militar, do qual a companhia era o braço mineral.
Em agosto de 1977, uma comitiva visitou os pequenos garimpos, onde menos de 200 homens trabalhavam. Participaram diretores da DOCEGEO e do Departamento Nacional da Produção Mineral, o DNPM, além do coronel Manso, do Conselho de Segurança Nacional, e do general Waldemar, comandante da Brigada de Infantaria de Selva de Marabá.
Entre os visitantes estava um homem que chamaria atenção nos anos seguintes.
“Apareceu também, com postura bastante discreta, sem uniforme militar, o major Sebastião Rodrigues de Moura, que se apresentou como Dr. Luchini. Posteriormente, viemos a conhecê-lo também como major Curió.”
Conforme o geólogo, desde o final da Guerrilha do Araguaia, Curió havia permanecido na região, atuando para o serviço de informações do Exército.
Uma notícia de 19 mil toneladas de ouro
A aproximação com os órgãos de segurança fez com que as atividades da DOCEGEO passassem a ser acompanhadas pelo Serviço Nacional de Informações, o SNI. Um economista lotado na agência de Belém começou a visitar mensalmente a sede da empresa para obter informações sobre geologia e mineração na Amazônia.
Foi também naquele período que uma notícia sobre o potencial de Andorinhas ajudou a ampliar a corrida pelo ouro.
Breno conta que, durante a visita da comitiva a Rio Maria, a diretoria da DOCEGEO apresentou a hipótese de uma reserva de 400 toneladas de ouro, para justificar o aparato mobilizado.
“Pouco sabíamos na época”, reconhece. Segundo sua estimativa, após a ocupação garimpeira ocorrida na década de 1980, a produção deve ter ficado ao redor de 10 toneladas.
O número divulgado na imprensa, entretanto, foi muito maior: 19 mil toneladas.
Segundo o relato de Breno, o jornalista Lúcio Flávio Pinto recebeu uma determinação da direção do grupo O Estado de S. Paulo, por orientação de Brasília, para publicar aquela informação. A notícia também circulou em O Liberal, de Belém.
O geólogo afirma desconhecer as razões para a divulgação desse volume. Levanta a possibilidade de interesse na valorização das ações da Vale ou em especulação na bolsa, sem apresentar essas hipóteses como conclusões.
“Apesar do absurdo da informação, fui proibido pela direção da Vale de desmenti-la”, afirma.
Somente no final de outubro, segundo ele, uma equipe da Globo esteve em Belém para gravar um esclarecimento de 30 segundos, exibido no Jornal Nacional. Até então, o ouro de Andorinhas já havia ganhado espaço na imprensa nacional e chegado à capa da revista Newsweek.
“É fácil se imaginar que tudo isso provocou uma corrida do ouro no sudeste do Pará.”
O caminho até Serra Pelada
Breno lembra que a procura também era incentivada por políticos da região, entre eles o médico, fazendeiro e ex-prefeito de Conceição do Araguaia Giovanni Queiroz. Nesse movimento, surgiram os garimpos do Rio Branco, nas proximidades de onde hoje fica Tucumã, e de Cumaru, mais ao sul.
Na mesma época, geólogos da DOCEGEO descobriram o cobre do Salobo, com ouro associado ao minério. Segundo Breno, a divulgação dessa associação pelo ministro Ueki estimulou o deslocamento de garimpeiros para a Serra dos Carajás.
“Assim, no km 30 da rodovia de acesso à jazida de ferro surge o Garimpo do 30, hoje Curionópolis.”
No final de 1979, o posseiro Genésio decidiu procurar ouro em sua propriedade, situada ao norte da Serra Leste, e descobriu a Grota Rica. A notícia se espalhou rapidamente.
“Começa a corrida que levou a ter 60 mil garimpeiros na cava em 1983”, relata Breno.
O ouro levado a Figueiredo
As informações sobre Serra Pelada chegaram ao SNI ainda no início da exploração, por meio dos contatos mantidos com a DOCEGEO. Breno explica que o garimpo estava dentro da área do decreto de lavra de minério de ferro de Serra Leste, sob concessão da Vale.
A companhia passou a adquirir a produção garimpeira por meio da DOCEGEO, a preço de mercado, como já havia feito em Antonio Vicente e Rio Maria. Com a expansão da atividade, compradores que atuavam no Tapajós chegaram a Serra Pelada e passaram a direcionar parte do ouro ao mercado paralelo.
“Em uma das reuniões com o economista do SNI, foi discutida a intervenção do governo, e a possível liderança de Curió no processo.”
No final de abril de 1980, Curió visitou o garimpo acompanhado de agentes da Polícia Federal. No aeroporto de Marabá, confiscou alguns quilos de ouro que estavam com o comprador conhecido como Zé Arara.
“Segundo relato do próprio Curió, esse ouro foi levado à mesa do presidente Figueiredo, que decidiu pela intervenção, que foi efetivada no dia 17 de maio de 1980.”
Na véspera, reuniões na sede do INCRA e no quartel da Brigada de Infantaria de Selva, em Marabá, trataram dos preparativos. Breno esteve presente como representante da Vale.
Além dele e de Curió, participaram o diretor de Fomento do DNPM, Manoel de Redenção e Silva; o diretor do órgão em Belém, Antonio Monteiro de Jesús; o geólogo José Thadeu Teixeira; e o assessor de segurança Antonio Venâncio, os dois últimos da DOCEGEO.
“Algumas imagens documentam o estado do garimpo na data da intervenção”, explica Breno sobre os registros de seu acervo.
Poucos enriqueceram
Quando a intervenção aconteceu, Serra Pelada já passava por outra transformação. Desde abril, a chegada de mais garimpeiros havia impulsionado a procura por ouro na colina ao sul da Grota Rica, apontada como possível origem do metal encontrado nos aluviões.
“Assim, começou a abertura das catas que deram origem à grande cava da Babilônia.”
Na avaliação de Breno, a fama de Serra Pelada se explica menos pela produção total de ouro, que, segundo seu relato, ficou abaixo de 60 toneladas, do que pelas numerosas pepitas encontradas na Grota Rica e na colina da Babilônia.
Posteriormente, apareceram os aglomerados hidrotermais de ouro, como a “pepita” Canaã, com cerca de 67 quilos, conservada no Museu do Banco Central, em Brasília.
Acima de tudo, porém, o geólogo destaca o cenário humano daquela ocupação. Milhares de homens chegaram com a esperança de mudar de vida, mas a fortuna ficou com poucos.
“Todos vieram com sonhos de riqueza rápida”, recorda Breno. “Poucos ‘bamburraram’, e quase todos ‘blefaram’.”
Publicado por:
Kleysykennyson Carneiro
Editor-chefe do Gazeta Carajás. Com mais de 15 anos de atuação no jornalismo, sua trajetória inclui passagens por televisão, assessoria institucional e direção de grandes eventos.
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