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Hoje o Brasil está enlutado. Sobretudo o meu coração. Logo cedo, abri os grupos de WhatsApp e descobri a morte de uma amiga, uma produtora cultural que se foi cedo demais. Rose Monteiro, mulher de talento, sensibilidade e enorme contribuição para a arte e a cultura de Tucuruí, no Pará. Rose lutava contra um AVC, mas, apesar dos esforços da equipe médica, não resistiu. Abro o Instagram e os jornais noticiam também a morte do jornalista e escritor Zuenir Ventura, aos 95 anos. Uma carreira exemplar, mais de seis décadas acompanhando acontecimentos importantes da história do Brasil e transformando parte de sua experiência de repórter em livros que se tornaram referências do jornalismo e da literatura brasileira. Não bastasse isso, mais um obituário: agora o do cantor Rick, da dupla Rick e Renner. Só isso já seria suficiente para fechar todas as redes sociais e viver, em silêncio, esse luto coletivo.
Fiquei pensando não apenas na última viagem de Rick, que jamais imaginaria que seria a sua última. A gente vive como se não fosse fazer a última viagem. Nós iremos, porém não sabemos quando. Talvez seja esse o grande engano da vida: acreditarmos que sempre haverá outra oportunidade, outro encontro, outro abraço, outro dia. A vida vai passando e nós vamos adiando.
Quisera todos nós pudéssemos viver sem tantas amarras e sem esses limites ferozes que inventamos para nós mesmos. Não deveríamos ter tantos pudores, nem deixar tanto para depois. Você provavelmente já leu que depois o café esfria. E, de fato, esfria. Somos colecionadores de “depois”. Depois eu abraço, depois eu digo que amo, depois eu perdoo, depois eu visito. E, quando percebemos, alguns desses “depois” já não existem.
A verdade é que só temos o hoje. Deixar para amanhã é correr o risco de o amanhã não chegar. Então, por que não oferecer hoje o amor que podemos oferecer? Por que economizar um abraço, uma palavra, uma visita, um pedido de perdão? A vida não nos avisa qual será o último café, a última conversa, o último beijo ou a última viagem. Talvez seja justamente por isso que devêssemos prestar mais atenção ao que ainda temos.
Gosto de pensar que estou aqui e que, um dia, já não estarei. A vida é maravilhosa, mas tudo acaba. Para alguns, a morte é o fim de tudo; para outros, não é o fim, mas a volta para casa. Não sei qual das duas respostas é a verdadeira. Mas sei que, enquanto a nossa última viagem não chega, ainda podemos escolher como viver esta viagem que nos foi dada.
Publicado por:
Kerley Carvalhedo
Kerley Carvalhedo (Marabá, Pará, 11 de março de 1991) é um escritor e cronista brasileiro. Formou-se pela Universidade Católica de Brasília (UCB).
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