Antes das grandes minas e da transformação que o minério provocaria no sudeste do Pará, Carajás chegou às páginas da Veja como uma descoberta capaz de mudar o destino da mineração brasileira. A edição nº 206, de 16 de agosto de 1972, publicou a reportagem “Riquezas do Brasil”, que apresentou a região ao lado de outras áreas de interesse mineral do país. Segundo o geólogo Breno dos Santos, aquela foi a primeira abordagem da Veja sobre Carajás e a segunda vez que uma revista brasileira se interessou pelo tema. O exemplar integra seu acervo pessoal e foi enviado por ele à sua coluna, acompanhado de lembranças dos bastidores da publicação.

A reportagem tinha o olhar de um Brasil que procurava conhecer as riquezas escondidas no próprio território. Embora abrisse com o anúncio de uma suposta grande reserva de urânio em Minas Gerais, dedicava espaço à descoberta do ferro de Carajás, em 1967, e citava uma estimativa de 11 bilhões de toneladas de minério. Descrevia a serra, as clareiras em meio à floresta e a atuação dos geólogos. As fotografias mostravam o acampamento, trabalhadores, pesquisas em campo e helicópteros, apresentados como peças fundamentais para as descobertas. Era o retrato de Carajás ainda na fase de prospecção, antes da exploração em grande escala.

Breno também aparecia na publicação, em uma fotografia com a legenda “Breno: a descoberta do ferro”. O texto reconstituía a formação da equipe de pesquisas e o voo em que ele identificou o minério, durante uma aterrissagem em uma clareira. A Veja relacionava a descoberta a mudanças na política mineral brasileira e já registrava a expectativa de transformação em Marabá, até então fortemente ligada à economia da castanha. Para quem vive hoje em Carajás, as páginas guardam o registro de um momento em que o futuro mineral da região ainda era uma promessa.

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Breno em foto para a Revista Veja
Breno em foto para a Revista Veja

Mas havia uma história que o leitor daquela edição não conhecia. Segundo Breno, a célebre fotografia do pouso de helicóptero na Serra Arqueada chegou a ser escolhida para a capa. “A célebre foto do pouso com helicóptero, na Serra Arqueada, ia aparecer na capa. Mas a falsa notícia da descoberta de urânio na região de Brumadinho, Minas Gerais, ganhou mais importância. Uma das jornalistas da matéria telefonou pedindo desculpa”, recorda. A edição acabou circulando com a chamada “Caça aos tesouros do Brasil” e a imagem de um homem de capacete e óculos de proteção.

Breno em foto para a Revista Veja
Helicóptero em Carajás

Ao compartilhar a relíquia, Breno situou a publicação no início de sua trajetória na DOCEGEO e lembrou a Veja dos tempos de Mino Carta. Mais de cinco décadas depois, resumiu com uma comparação o contraste entre a aposta que ganhou destaque naquele momento e o caminho percorrido por Carajás: “Mas o urânio badalado não existe, e Carajás transformou-se na principal província mineral brasileira”. Preservada em seu acervo, a revista reúne o registro da descoberta e a memória de quem participou dela.