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Segunda-feira, 09 de Fevereiro de 2026
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Notícias / Educação

"Quando a escola é soterrada por diagnósticos, a aprendizagem deixa de ser processo e vira exceção"

'Daqui a pouco, todo mundo vai ser autista ou ter déficit de atenção', diz psiquiatra sobre excesso de diagnósticos

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Nunca se falou tanto em saúde mental nas escolas — e, paradoxalmente, nunca se esteve tão adoecido dentro delas. Professores e gestores vêm sendo pressionados por uma avalanche de diagnósticos que, em vez de promover acolhimento e estratégias reais de inclusão, estão transformando a escola num campo de hiperpatologização. Tudo parece ter virado sintoma. Tudo parece precisar de laudo. Tudo parece ser transtorno.

O problema, evidentemente, não está na escuta atenta, no cuidado ou na valorização da saúde mental. Isso é necessário, urgente, e há avanços importantes nesse campo. Mas como alerta a psiquiatra Juliana Belo Diniz, no livro “O que os psiquiatras não te contam”, a popularização da saúde mental na cultura pop trouxe também efeitos colaterais sérios: uma explosão de diagnósticos de transtornos como TDAH e TEA, muitas vezes feitos de forma superficial, precoce e sem considerar as complexidades do ambiente social e educacional.

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Professores estão sendo convocados a funcionar como “detectores de sintomas” e não como mediadores da aprendizagem. E gestores, ao tentarem lidar com demandas que extrapolam a formação pedagógica, se veem soterrados por protocolos, laudos e cobranças externas que pouco dialogam com a realidade das salas de aula. O risco é enorme: a escola deixa de ser espaço de formação para se tornar um repositório de rótulos. Crianças e adolescentes, antes vistos como sujeitos em desenvolvimento, passam a ser enquadrados por siglas. O comportamento deixa de ser compreendido em sua pluralidade e vira problema clínico a ser corrigido.

É preciso que a escola retome sua missão pedagógica e recupere a confiança no vínculo, na escuta, no processo educativo. Nem todo comportamento precisa de remédio. Nem toda dificuldade precisa de laudo. Às vezes, o que falta é tempo, afeto, condições de trabalho e políticas públicas que sustentem verdadeiramente uma educação inclusiva, e não uma cultura de medicalização generalizada.

Fonte/Créditos: Renato Casagrande — Presidente do Instituto Casagrande, referência em práticas educativas inovadoras. Pesquisador, palestrante e escritor.

Créditos (Imagem de capa): Reprodução: O Globo

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Venuzia Fernandes

Publicado por:

Venuzia Fernandes

Administradora por formação, colunista e fundadora da empresa Gazeta Carajás.

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