O cenário político do Tocantins vive mais um capítulo de tensão e disputas pelo poder. Após três meses de interinidade, o vice-governador Laurez Moreira (PSD) devolveu o cargo ao titular Wanderlei Barbosa (Republicanos) em 10 de dezembro, por decisão do Superior Tribunal Federal (STF). O retorno, no entanto, longe de ser uma simples transição burocrática, acirrou uma disputa silenciosa que agora ganha contornos públicos – e geográficos.
O gabinete do vice-governador está sendo transferido da sede do Executivo, o Palácio Araguaia, para um imóvel privado localizado sobre a loja Encanel, no centro de Palmas. A mudança, que deve ser concluída nos próximos dias, é oficialmente tratada como uma “reorganização administrativa”. Nos bastidores, porém, é vista como a materialização de um rompimento.
Do centro do poder para a periferia simbólica
Durante o período em que Wanderlei esteve afastado – alvo de operações da Polícia Federal e investigado por corrupção –, Laurez Moreira comandou o estado. Fontes do governo relatam que, desde o retorno do titular, o gabinete do vice teve sua movimentação reduzida a quase zero. O ambiente no Palácio Araguaia, segundo avaliações internas, tornou-se “desfavorável” à presença de Laurez e de seus aliados.
A transferência para fora da sede do governo é um sinal político eloquente: o vice, figura constitucionalmente destinada a substituir o governador, será agora um morador externo, realizando atendimentos e despachos à distância.
A reação: uma nota carregada de ironia e acusação
Laurez Moreira não aceitou a mudança em silêncio. Em nota publicada nas redes sociais, o vice-governador expressou surpresa e lançou dardos contra a gestão Wanderlei Barbosa.
“Sim, o Tocantins vive à mercê de vaidades que ultrapassam os limites do rigor institucional”, escreveu. “Sou vice eleito com pleno direito legal de substituir o titular. E assim o fiz, cumprindo a atribuição a mim conferida, não por vontade pessoal, mas por uma decisão judicial que afastou o titular, que permanece respondendo a investigação e processos que não foram arquivados. Sou livre de vaidades e dedico minha vida e meu trabalho ao que é melhor para o Tocantins.”
O trecho final, em especial, é lido como uma afiada resposta ao governador, relembrando que Wanderlei Barbosa retorna ao cargo, mas não está livre das ações judiciais que motivaram seu afastamento inicial.
Reflexos no tabuleiro eleitoral: uma epopeia política
O episódio não é apenas um conflito pessoal. Ele ocorre em um momento sensível de rearranjo político no estado. Laurez Moreira, que nutre aspirações ao governo, vê seu espaço político encolher drasticamente com a saída física do centro de decisões. A medida dificulta a articulação política e a visibilidade necessárias para consolidar uma pré-candidatura nas eleições estaduais que se aproximam.
Para Wanderlei Barbosa, a reafirmação de autoridade é clara, mas o custo é uma crise aberta com o vice, que pode fragilizar a base de apoio no Palácio e alimentar a oposição interna. Uma epopeia política com final em aberto.
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