Há quase 12 anos ninguém ocupa o gabinete da Prefeitura de Canaã dos Carajás, se não Jeová Andrade e Josemira Gadelha. Eventualmente seus vices, é claro, mas a confortável poltrona do executivo canaense só pertenceu aos dois ao longo de mais de uma década. Os dois assinaram leis, nomearam secretários, definiram orçamentos e se reuniram até tarde da noite com suas cúpulas em busca de soluções para problemas da cidade mais rica do Pará. Em Canaã, Jeová e Josemira sabem o que é ser a pessoa mais poderosa da Terra Prometida.
As semelhanças, no entanto, parecem acabar por aí. Prestes a disputarem mais quatro anos no poder, a advogada Josemira e o educador Jeová mostram serem pessoas diferentes e prefeitos de Canaãs profundamente diferentes – a Canaã do Instagram e a Canaã de fato.
Jeová Andrade representa uma Canaã dos Carajás histórica, de lutas, de resiliência, de transformação e quase revolucionária. Prefeito entre 2013 e 2020, Jeová lutou pela emancipação da Terra Prometida, foi vereador quando Canaã ainda era um humilde distrito de Parauapebas, professor e diretor da primeira escola local e pioneiro do município. Tal identificação com Canaã chega ao ponto de confusão: sim, a história do ex-prefeito se confunde com a do município. A Jeová, a Canaã de fato, a Canaã onde se sabe quem foi Weyne Cavalcante, quem foi Antônio Chorão e o nome de cada morador e sua ascendência.
Por sua vez, Josemira Gadelha representa a Canaã do Instagram, das trends, da descartabilidade de reels e das boas manchetes na capital. Até 2020 uma ilustre desconhecida da população local, a prefeita investe pesado na imagem do próprio governo para vender uma Canaã que ainda engatinha para existir. A estratégia é bem definida e muitíssimo bem divulgada: consolidar o turismo em Canaã a fim de criar uma vertente econômica capaz de sustentar o município quando a mineração já não for viável. Em tempo, o turismo de eventos é a primeira grande aposta da prefeita – Festival Gastronômico, Canaã Cidade Junina, entre outros. Verdade seja dita: o caminho escolhido pela prefeita é eficiente até aqui, visto que apesar dos problemas, sua reputação é quase imaculada, a oposição é mínima e ela segue favorita nas pesquisas eleitorais.
A Jeová, cabe também a figura do homem que não segue roteiros, que não se amarra a conjunturas políticas e que, à revelia das decisões do governador Helder Barbalho em 2022, decidiu seguir as próprias convicções e votar em Bolsonaro para presidente. Tal decisão lhe custou uma cadeira na Assembleia Legislativa do Pará, a qual renunciou no fim do ano passado por entender que era necessário se filiar a um novo partido.
Já Josemira segue à risca orientações do próprio time por entender que é necessário, ainda que estas orientações venham de encontro ao que o povo de Canaã acredita, como ficou claro em 2022. A gestora foi orientada a ficar neutra nas eleições, apesar do grande eleitorado conservador no município, e ficou. Não é segredo para ninguém que Josemira está cada vez mais próxima do governador Helder, que não é figura das mais queridas em Canaã – orientações do grupo.
Falando ainda em diferenças, Jeová e Josemira estão separados pelos tipos de eleitorado. Se o ex-prefeito é popular entre pioneiros e famílias tradicionais do município, Josemira anda em alta com a juventude – em partes, fruto da própria figura instagramável.
Jeová é quase uma unanimidade entre o eleitorado conservador. Josemira leva vantagem entre o eleitorado progressista. Jeová estruturou Canaã do ponto de vista fiscal e na infraestrutura. Josemira optou por investir em programas sociais e em grandes eventos.
Quem analisa Canaã e suas características eleitorais, o faz levando em conta um município apenas, de povo unido. Mas não. Canaã é dividido em dois ou até mais pedaços e quem acredita em uma vitória fácil para quem está com a máquina na mão, pouco conhece da história desta cidade.
A Terra Prometida está mais dividida do que nunca e viverá a eleição mais complexa de sua história. De um lado, o tradicional, o histórico, os pés no chão. Do outro, uma poderosa e midiática máquina, o presente com complexo de única resposta para o futuro.
Impossível saber quem sairá vitorioso de uma disputa tão acirrada, mas a certeza é uma só: pelo menos por mais quatro anos, nenhum outro nome sentará na cadeira mais importante de Carajás.
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