Um novo documento do Vaticano, que declara a salvação da humanidade como uma obra exclusiva de Cristo, está chamando a atenção no mundo religioso. Essa afirmação, tão familiar aos ouvidos evangélicos, poderia reaproximar igrejas separadas há mais de cinco séculos? Especialmente em um momento em que alguns evangélicos estão descontentes com a instrumentalização política de suas igrejas.
Por décadas, o fluxo de convertidos no Brasil foi majoritariamente do catolicismo para o protestantismo. Parte essencial dessa conversão é a rejeição de elementos centrais da fé católica, como a devoção à Virgem Maria e aos santos. Os evangélicos fazem suas orações diretamente a Deus, sem intermediários.
A rejeição às imagens sagradas é um pilar protestante, baseado no mandamento "Não farás para ti imagem de escultura". Desde a Reforma, com igrejas que caiam as paredes para cobrir imagens, até as modernas "igrejas de parede preta", a tradição iconoclasta permanece.
O novo documento do Vaticano, que nega à Maria o título de "corredentora", parece se aproximar dessa visão. No entanto, ele também reafirma o lugar único de Maria como "advogada" e intercessora junto a Deus. Para a doutrina católica, Maria, no céu, ouve as orações dos fiéis na terra e intercede por eles. Já os evangélicos creem que não há comunicação entre vivos e mortos e que as orações devem ser feitas somente a Deus.
Essa diferença reflete visões de mundo distintas. O sociólogo Peter Berger argumenta que o protestantismo "desencantou" o mundo, removendo parte do mistério e da magia da religião. Os evangélicos, herdeiros dessa tradição, acreditam em milagres, mas simplificam o processo: não é preciso a intercessão de santos ou uma hierarquia tradicional, basta orar com fé em nome de Jesus.
Talvez a diferença mais radical esteja na própria compreensão do que é a igreja. Para os católicos, é uma comunidade mística que reúne vivos e mortos de todos os tempos. Para os evangélicos, é uma comunidade utilitária, criada pela associação voluntária dos fiéis.
A declaração do Vaticano levanta duas questões sobre fluxos religiosos. A primeira é se ela facilitará a saída de católicos para as igrejas evangélicas, já que um dos principais obstáculos doutrinários foi atenuado. A segunda, e mais pertinente no contexto atual, é se a nova ênfase romana, somada à desilusão de alguns evangélicos com a política, aumentará o fluxo inverso.
Mudanças de religião são complexas e raramente dependem de um único fator doutrinário. O documento do Vaticano é, sem dúvida, um passo importante de afirmação identitária e esforço ecumênico. Mas o abismo entre católicos e evangélicos é feito de vivências diferentes do sagrado. Um abismo que ainda é gigantesco.
Fonte/Créditos: Com informações de Valdinei Ferreira, Folha de São Paulo
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