Na Praça dos Três poderes de Goianésia do Pará, município de 26 mil habitantes localizado na região do Lago de Tucuruí, a rotina do prefeito Francisco Eduardo Oliveira Silva, o Russinho, 49 anos, está sendo vigiada. Seus passos são monitorados dia e noite. Além de trabalhar incansavelmente para recuperar um município que amarga gestões ruins há vários anos, o prefeito está preocupado com a própria vida.
Todos os dias ao sair de casa para a Prefeitura, Russinho faz uma oração e pede a Deus para que nem ele, nem ninguém da sua família e amigos sejam assassinados. O medo existe, é constante, pois o pai de Russinho, João Gomes, o Russo, foi morto há exatos 10 anos, no dia 24 de janeiro de 2016.
Era domingo de noite e Russo estava em um velório quando um pistoleiro chegou, disparou contra ele sete vezes, correu, subiu em uma motocicleta e desapareceu. À época, cinco equipes da Polícia Civil foram deslocadas para a cidade. As investigações concluíram tratar-se de uma execução por motivação política.
O pistoleiro era Benedito Perez Campelo, que acabou preso no Piauí quase um ano depois do crime. Ele foi condenado a 32 anos pelo crime. O mandante foi José Ernando da Silva Branco, o Zé Ernesto, que era vereador de Goianésia do Pará, estava insatisfeito com a gestão de Russo e queria caminho livre para as eleições daquele ano.
O mandante foi assassinado em fevereiro de 2016, menos de 30 dias após o crime que encomendou.
O assassinato de Russo foi o primeiro de uma série que marcou a região entre 2016 e 2018, num período que a imprensa local chamou de "Triângulo da Morte", envolvendo os municípios de Goianésia do Pará, Breu Branco e Tucuruí. As investigações na época apontaram disputas por recursos públicos e controle de cargos como pano de fundo dos crimes.
Uma data sombria
Na próxima terça-feira, 27 de janeiro, Russinho completará 50 anos de vida. A data seria uma celebração importante, se não fosse a traumática memória da perda. Há 10 anos, seu pai foi assassinado três dias antes de completar 40 anos.
Ele assumiu a prefeitura em janeiro de 2025 e afirma que vive sob pressão e ameaças. Em entrevista à reportagem da Gazeta Carajá, ele descreve um assédio constante: carros com vidros escuros o acompanham em trajetos pela cidade, inclusive até a porta de sua casa. As ameaças, segundo ele, não são diretas, mas chegam de forma velada, através de informações repassadas por aliados.
"O clima é de tensão o tempo todo", afirma o prefeito, que tem reforçado seu esquema de segurança pessoal e evitado exposição desnecessária. “A gente tem medo, mas essa missão de governar Goianésia foi dada a mim por Deus e eu preciso trabalhar por este município.”
Possíveis motivações
Russinho diz que, ao assumir o mandato, encontrou a administração municipal em situação grave, com diversos problemas estruturais e financeiros. Segundo ele, a busca por soluções e uma gestão mais técnica tem desagradado grupos políticos locais acostumados a determinados mecanismos de influência. Ele não citou nomes, mas acredita que essa resistência seja a origem das intimidações.
O medo não é apenas por sua própria vida. "É pela família, pelos amigos, por quem trabalha ao seu lado", relata. Como medida de precaução, o prefeito planeja uma viagem a Belém para solicitar um reforço oficial em seu esquema de segurança ao Governo do Estado, do qual Russinho é aliado.
Às vésperas de completar meio século de vida, o prefeito de Goianésia do Pará carrega o peso de um legado familiar marcado pela violência política. Enquanto tenta governar, seus passos são vigiados, e a sombra de um velório, dez anos atrás, parece insistir em não se dissipar.
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