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Canaã dos Carajás: em busca do turismo perdido

ICMBio e Vale fecharam cachoeiras há quase dois anos. De lá pra cá, burocracia demais, poucas respostas, rumores de negociatas às escuras, promessas de “turismo seguro” e riqueza que pertence a Canaã trancada a sete chaves, protegida pelas espingardas da Vale

Canaã dos Carajás: em busca do turismo perdido
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Canaã dos Carajás começou a receber seus primeiros moradores na década de 70. Pessoas que vieram de outros estados para tentar uma vida nova, abrindo picadas na mata na base da foice e do facão. Ao chegarem na região que mais tarde se tornaria Canaã, os pioneiros encontraram uma terra produtiva, abundante, fértil... Ainda em Canaã, esculpidas entre as matas, os pioneiros encontraram cachoeiras de todos os tamanhos. A água era pura, cristalina, gélida, um verdadeiro paraíso entregue por Deus aos homens.

Até meados de 2021, as cachoeiras-dádivas-de-Deus estiveram disponíveis para os moradores de Canaã dos Carajás e região. As belezas naturais de Canaã se tornaram atrativos turísticos e pessoas de muitos lugares vinham até o município para visitar e apreciar o então paraíso entregue por Deus.

No entanto, as cachoeiras foram fechadas pela Vale e pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Os atrativos estão dentro do Parque Nacional dos Campos Ferruginosos, unidade de preservação ambiental que a Vale foi obrigada a criar como contrapartida ambiental pelos impactos do Projeto S11D.

Quase dois anos se passaram desde então e as cachoeiras nunca mais foram abertas. Pioneiros que abriram estradas com as próprias mãos, seus filhos e outros milhares que contribuem para que Canaã seja a potência que é, simplesmente não podem entrar em uma área que é sua por direito. Seguranças da Vale armados vigiam as fronteiras do parque nacional e estão prontos para botar pra correr quem descumprir a ordem de não entrar no local.

Na última semana, uma polêmica foi levantada pelo parlamento de Canaã sobre uma oficina que será realizada no fim do mês para debater o futuro do parque. Pouquíssimas pessoas sabiam da fatídica reunião, mas o ICMBio divulgou nota afirmando que o encontro havia sido divulgado e as pessoas devidas foram convidadas. No entanto, pouquíssimas pessoas tiveram acesso a essa informação e qualquer justificava do ICMBio pode explicar isso. O órgão destacou ainda que as cachoeiras foram fechadas para que fossem adaptadas para um “turismo seguro”.

 

O fato é que dois anos depois, tudo continua fechado. É burocracia demais, poucas respostas, rumores de negociatas às escuras, promessas de “turismo seguro” e riqueza que pertence a Canaã trancada a sete chaves, protegida pelas espingardas da Vale. Enquanto o ICMBio fala em segurança turística, o canaense rebate com a afirmação de que acidentes graves jamais foram registrados nas cachoeiras.

A verdade é que em dois anos, mesmo com o poder financeiro da Vale por trás, o ICMBio foi incapaz de entregar o que havia sido prometido. O morador de Canaã que estava acostumado às maravilhas naturais, está aprendendo a viver sem acesso a algo que lhe pertence.

O ICMBio, como o próprio nome diz, existe para preservar a biodiversidade. O canaense não quer ter acesso às cachoeiras para destruir absolutamente nada. Pelo contrário, todos nós sabemos que o nosso futuro econômico passa pelo turismo e as cachoeiras são parte importante disso e que devem ser preservadas, portanto.

Estamos em busca do turismo perdido. Em busca de nossas raízes. Ao abrirem picadas no meio da mata com as próprias mãos e se depararem com as riquezas que aqui Deus deixou, os pioneiros jamais imaginariam que os filhos desta terra seriam privados de suas belezas.

Se não houver de nossa parte cobranças à Vale e ao ICMBio, continuaremos privados do que nos pertence, em busca do turismo perdido, em busca de nós mesmos. A Vale, que não tem coração ou sentimento de pertencimento, pouco se importa com o que é nosso por direito. A ela, só interessa margens de lucro em espaços de tempo cada vez menores.

E o que interessa ao ICMBio na região?

Ora, agradar a poderosa mineradora e repassar seus recados.

 

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Kleysykennyson Carneiro

Publicado por:

Kleysykennyson Carneiro

Editor-chefe do Gazeta Carajás. Com mais de 15 anos de atuação no jornalismo, sua trajetória inclui passagens por televisão, assessoria institucional e direção de grandes eventos.

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