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Jogue minhas cinzas em Carajás

Do descobrimento de Carajás à serenidade dos dias atuais, um almoço em Niterói com Breno dos Santos

Jogue minhas cinzas em Carajás
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Já me correspondia por e-mail com Breno Augusto dos Santos desde 2024. Sempre fora um grande herói e lembro-me bem de uma palestra sua que tive a oportunidade de cobrir no longínquo ano de 2018 como repórter do Jornal In Foco. Fiquei entusiasmado com a ideia de entrevistá-lo ao fim da palestra, mas precisei sair antes do fim por conta de uma pauta policial de última hora ocorrida em Canaã dos Carajás na época.

Ter acesso ao seu e-mail pessoal, em 2024, havia sido uma grande conquista por nossa parte. Elaborei 15 perguntas para ele e enviei em seu e-mail deixando claro que, para mim, poder entrevistá-lo era uma honra absoluta. Ele respondeu, elogiou as perguntas e pediu um tempo para mandar as respostas, pois era necessário quase que “um tratado” para responder cada uma.

Dias depois, as respostas. Histórias detalhadas de suas aventuras pela Amazônia, de suas descobertas e conquistas. Falou de família, de trabalho, de política, de tudo. Publiquei a matéria, que repercutiu muito e firmamos um laço. A partir daquilo, Breno dos Santos passou a mandar textos para publicações na Gazeta Carajás. Com muita alegria, criamos a “Coluna do Breno dos Santos”, onde os textos foram publicados. Todos impactantes, pela emoção, pela complexidade, por tudo. De cara, ao ver os textos, constatei o óbvio: Breno é um extraordinário e sensível escritor. Melhor que eu, inclusive. Quis ser seu amigo imediatamente.

Os anos se passaram, as correspondências continuaram e as histórias, dinâmicas e, em alguns momentos, até engraçadas continuavam a mexer com as minhas emoções e as emoções de quem as lia. Ganhamos força editorial, evidentemente, afinal o maior geólogo do Brasil contribuía com nossa gazeta e Breno faz parte do crescimento deste jornal.

Textos como “A madre tinha razão”, “A república livre de Buritirama”, o “Pantaleão do Itacaiúnas” pareciam rasgar a minha carne e adentrar a minha alma com verdades escritas com tanta sensibilidade acerca da riquíssima história de Carajás – elo de ligação que existe entre mim, editor-chefe desta Gazeta, e Breno dos Santos, o homem que descobriu as riquezas deste lugar.

O encontro pessoal

Eu não imaginava nem nos meus mais absurdos sonhos que teria a chance de conhecer Breno pessoalmente. Na minha cabeça, Breno morava em um intocável Olimpo, vivendo acima de mortais, tal como heróis históricos o são. Não havia chances de que ele ainda se inclinasse a encontros pessoais com um jornalista do interior do Pará.

Porém, como o destino é repleto de coincidências, a neta de Breno, Laura, a que também pude conhecer pessoalmente, sofreu bullying em uma escola que frequentava em Niterói. Lamentável. A família decidiu mudá-la de escola.

Eis que em uma aula de geografia, já na nova instituição, o professor começou a narrar para a classe a história da descoberta de Carajás e o trabalho de Breno. Laura levantou a mão rapidamente:

- É meu avô! – falou a jovem.

O professor ficou maravilhado com a descoberta. Pediu para que Breno fosse até a escola e acabou ficando amigo do geólogo. O diretor da escola também se aproximou de Breno.

Acontece que a nova escola de Laura faz parte da Inspira Rede de Educadores, segundo maior grupo educacional do Brasil, que também tem uma unidade escolar em Canaã dos Carajás – o Centro Educacional Primeiro Mundo. O diretor da escola de Laura conhece o diretor regional de operações do Norte, que também é responsável pela unidade canaense, o amigo Gustavo Bicho.

Gustavo soube da história e convidou Breno para uma palestra sobre a descoberta de Carajás para os estudantes locais. Breno aceitou o convite e veio no dia 25 de maio para Canaã. Palestrou no dia 26 para mais de 900 pessoas.

- Fiquei nervoso com tantas pessoas. – afirmou ele quando conversamos – Achei que não ia tanta gente, nem dormi bem por causa disso.

Na tarde do dia 26, o amigo Gustavo me ligou.

- Onde está você? O Breno quer te ver.

Tremi da cabeça aos pés. Fiquei nervoso pela oportunidade de conhecer um herói geracional, um dos personagens mais importantes da história do Brasil.

Marcamos o encontro para a manhã do dia seguinte, dia 27. Não dormi direito, sequer tomei café. Vesti a melhor roupa que tinha e fui encontrá-lo no Hotel Pumma. Ele vestia uma camisa polo azul elegante.

Breno é alto, mais alto do que eu supunha. Tem 86 anos, a voz firme, uma lucidez indescritível e a melhor memória que já vi na vida. Fala com detalhes impressionantes sobre histórias que aconteceram 60 anos atrás, descreve cenas complexas, lembra de diálogos marcantes e tem serenidade. Fiquei surpreso com a sua humildade.

- Qualquer um descobriria Carajás. A coincidência foi que cheguei primeiro – relata.

Conversamos por mais de duas horas seguidas. Sua filha, Márcia, insistia para que ele tomasse água. Não quis em nenhum momento.

 

Breno falou sobre a perda da esposa, sobre os filhos e revelou um desejo que fez meus olhos marejarem. O maior geólogo do Brasil quer ter as suas cinzas jogadas em Carajás, junto com as da esposa Yolanda, ao som de My Way de Frank Sinatra. Agora, ao escrever este detalhe, meus olhos se enchem de lágrimas mais uma vez.

Durante nossa conversa, descobrimos mais uma coincidência: iríamos para o Rio de Janeiro naquela mesma data, no mesmo voo, fazendo as mesmas conexões. Mais oportunidades para conversar sobre a região da qual compartilhamos o mesmo amor e interesse.

A caminho do Rio de Janeiro

Tenho medo de aviões. Venuzia nem tanto. Embarcamos no voo de Carajás com destino a Belo Horizonte e vimos Breno passar perto de nós com sua filha. Por conta da prioridade, ele embarcou primeiro.

Embarcamos depois e o encontramos já sentado com a filha na cadeira. Nos abraçamos mais uma vez e Venuzia pode, enfim conhecê-lo, já que Breno também é um de seus heróis. Falamos brevemente e combinados um encontro para dialogar melhor em Confins.

A presença de Breno no avião arrefeceu um tanto o meu irracional medo de voar. Afinal, ele é, claramente, alguém à prova de quedas de aeronaves – já sobreviveu a duas em um helicóptero e a um pouso de emergência com Tom Jobim a bordo. O voo foi tranquilo, é claro.

Em Confins, jantamos e nos encontramos com pai e filha na espera pelo início do embarque para o Aeroporto de Santos Dummont. Venuzia se sentou ao lado dele e eu fiquei em pé, de frente. Falamos sobre trabalho, sobre Carajás e aí surgiu o mais imponderável de todos os convites que já recebemos na vida.

- Vocês podiam ir almoçar com a gente em Niterói? Quando podem ir? – ele convidou.

Surpresos e nervosos com o momento e com a oportunidade, combinamos de visita-lo na segunda-feira, dia 1º de junho. Embarcamos para o Rio e, lá chegando, nos vimos de longe apenas, já com os corações ansiosos pelo reencontro em Niterói.

O melhor almoço de nossas vidas

Ficamos hospedados na Barra da Tijuca, portanto longe de Niterói. Pegamos um Uber para o nosso destino, Edson, o nome dele. Atravessamos o caótico trânsito do Rio pela Linha Amarela, pegamos a Ponte Rio-Niterói e nos deparamos com a grandeza da zona portuária do Rio.

O carro de Edson era um BYD novo e ele comentou que estavam descendo no porto vários carros como os dele vindos da China. Não resisti e falei.

- Você está nos levando até a casa do homem que descobriu com um martelo uma das maiores províncias minerais do planeta. De lá, sai minério de ferro e o cobre que vão para a China e são usados para construir esses BYD’s que estão chegando agora do oriente.

Ele ficou impressionado. Não tanto quanto deveria.

A princípio, tivemos dúvidas sobre qual seria a casa. Tocamos a campainha do número oito e fomos recebidos pelo nosso herói em carne e osso. Fazia frio em Niterói e ele falou sobre uma enjoada dor nas articulações. Subimos a escada que dava acesso à casa e nos deparamos com belas fotos de família bem na entrada. Do lado direito, um cartaz do filme Serra Pelada de Heitor Dhalia, da qual Breno dos Santos, colaborou com o roteiro.

Ao centro, fotos da esposa Yolanda, dos filhos, dos netos. Fomos recepcionados por alguns bem cuidados felinos que ronronavam mostrando alegria e segurança por viverem ali – privilegiados!

O descobridor de Carajás é um tipo cavalheiresco, anfitrião raro, atencioso e preocupado com suas visitas. Mostrou um pouco da casa, comentou que a adquiriu na década de 80 em uma operação bancária feita às pressas e destacou que gostava de viver ali. Sentamos em uma varanda com vista para a piscina. 

Venuzia, Márcia e eu tomamos vinho, o que veio a calhar diante do frio que acometia a cidade. Nosso assunto não podia ser outro senão o fio que nos unia: Carajás. Breno falou sobre a chegada ao local, sobre a abertura da pista de N1 – primeira pista preparada para o pouso de aviões na região – falou sobre companheiros como Tolbert e o comandante Adão Coelho de Barros.

 

Ele também falou sobre Serra Pelada. Breno sabe tudo a respeito da lendária montanha de ouro movida pela ambição humana, já que acompanhou os trabalhos no local. Contou histórias sobre a montanha, falou sobre garimpeiros e conversou comigo sobre um outro herói que possuo: o jornalista Lúcio Flávio Pinto.

De forma bem humorada, Breno conta que ele disse a Lúcio Flávio que a “culpa” pela corrida do ouro em Carajás é do maior jornalista que o Norte brasileiro já viu. Segundo Breno, uma manchete de Lúcio anunciando ouro encontrado na Serra das Andorinhas (nome dado por Breno ao local que hoje é atração turística) atraiu garimpeiros de todo o Brasil para a região. Garimpos em diversas cidades como Ourilândia e Tucumã pipocaram e Serra Pelada foi o maior destes.

Breno também contou que uma neta sua é casada com o filho de Orly Bezerra, um dos maiores publicitários e jornalistas do Pará, um amigo.

- O mundo é pequeno.

- O mundo do papai é ainda menor – afirmou Márcia

- Minha vida é cheia de coincidências – disse ele.

Breno nos contou sobre uma queda de helicóptero que teve, queda esta em que sua esposa também estava. Ninguém ficou gravemente ferido.

O almoço foi servido por volta do meio dia, mas bem que podia ser outro horário, pois me desliguei do telefone como há tempos não o fazia e não tinha a menor noção do passar das horas.

A comida estava impecável. Arroz, estrogonofe, batata palha caseira e uma salada com legumes plantados pelo próprio Breno em sua casa. Tudo orgânico e delicioso. A melhor refeição que tivemos ao longo dos dias no Rio de Janeiro. Foi durante o almoço que conhecemos mais um filho de Breno, o Paulo. Irmão gêmeo de Márcia e pai da Laura, que também comeu conosco.

Nos deliciamos com uma sobremesa caseira e café enquanto Breno nos presenteava com mais histórias sobre Carajás – um privilégio que poucos têm. Após a refeição, fomos para a sala, local em que conversamos mais sobre algumas aventuras do maior geólogo brasileiro

O escritório do geólogo

Breno nos levou ao seu escritório. O cômodo foi construído depois e o seu acesso é por uma escada em caracol no quintal. Fiquei maravilhado quando vi o espaço. Havia centenas de livros, talvez milhares. Jornais impressos, artigos, fotografias, registros da história de Carajás... Talvez o segundo mais rico acervo da história da região, perdendo somente para o que a Vale possui, que também foi montado com a ajuda de Breno.

O grande geólogo é aficionado por leitura. Desde densas leituras técnicas da sua área de atuação, passando por clássicos da literatura, até matérias da imprensa brasileira sobre mineração, em especial as que falam sobre o Pará e a sua descoberta. Para a minha surpresa, Breno elogia a forma como a imprensa contou a história de Carajás.

Passeio os meus olhos pelos jornais e vejo alguns escritos de Lúcio Flávio Pinto. Vários, na verdade. Breno tem uma meta: digitalizar tudo o que há no seu escritório para que a história de Carajás se mantenha viva para as futuras gerações. Com uma pitada de humor ácido e uma honestidade brutal, o geólogo dispara:

- Acho que não consigo digitalizar tudo antes de morrer.

Rebato e digo que ele vai viver por muitos anos.

- Mas é que é muita coisa. Não sei se consigo.

De uma gaveta ele tira um pendrive de 32 gigabytes e me fala. O que você quer levar pra você?

- Tudo. – respondi com atrevimento e um sorriso.

- Tudo não dá. É muita coisa.

- Quero fotos, vídeos, o que você puder me passar...

Breno nos mostra parte importante da história de Carajás, seu acervo pessoal

 

No seu computador de mesa, Breno começou a me mostrar registros do tempo. Feitos por ele próprio com sua câmera. Amigos, acampamentos, trabalho, indígenas, aviões... Visitar o escritório de Breno é uma verdadeira imersão na história.

Enquanto copiava os arquivos para o pendrive, começamos a falar sobre política.

A política para Breno dos Santos

O histórico geólogo revelou que tem uma visão política de centro-esquerda. Ele disse acreditar que a desigualdade social talvez seja o maior problema do Brasil, afirma que vota em candidatos que tenham projetos voltados ao coletivo e relembrou algumas histórias de quando era secretário de Minas e Metalurgia.

Breno não é otimista com o futuro e acredita que o mundo caminha para uma Guerra Mundial em, no máximo, 20 anos. Ele critica a maneira como os ricos se comportam para proteger os seus próprios estilos de vida.

- O jovem pobre acaba tendo três alternativas: aceitar a vida que tem, onde a ascensão social é quase impossível. Entrar para o crime organizado, onde ele sabe que vai morrer, mas pelo menos vai ganhar algum dinheiro antes da morte. E, em escala mundial, o terrorismo. Por isso que a guerra é inevitável, pois a guerra é a forma mais fácil do rico proteger seu estilo de vida.

O geólogo também afirmou que o caso de jovem que saiu da favela e venceu na vida não pode ser considerado a regra geral.

- É apenas um caso, uma jornada inteira do herói para que isso aconteça. Não vai acontecer sempre.

Conversamos também sobre a política em Carajás. Breno mostra decepção e preocupação com o desperdício de tempo e de oportunidades. Para ele, houve incompetência política, educacional, tecnológica e empresarial para realizar um desenvolvimento integrado da Província Mineral de Carajás.

Meu amigo lamenta profundamente a desocupação desordenada, a grilagem de terras e o desmatamento desenfreado.

A Vale não é a culpada

Questionei a Breno sobre a culpa da Vale em relação ao desmatamento da região e a não-verticalização da produção mineral. O descobridor de Carajás foi enfático: a Vale não tem culpa nenhuma disso.

De acordo com Breno, a Vale não sabe trabalhar com verticalização e todas as vezes que tentou seguir por este caminho teve prejuízos.

Breno segura um antigo martelo de trabalho

 

- A Vale é uma empresa de exploração mineral, que sabe retirar matéria-prima e mandá-la para fora. Ela não tem obrigação nenhuma de verticalizar esse minério retirado. Entendo que a Vale já faz muito pela região.

Para Breno, o que falta mesmo é interesse político e empresarial para agregar valor aos produtos extraídos do solo.

- A região é rica, tem a melhor estrada de ferro do Brasil, o solo é bom... Não falta nada!

O desmatamento preocupa muito Breno, que sabe que as mudanças climáticas são algo real e que já pertencem ao presente.

- Olha, se nada for feito para reflorestar a região, uma chuva como a que caiu no Rio Grande do Sul deixa Parauapebas debaixo de água. Sem as matas ciliares na margem, o rio fica cada vez mais largo e a água transborda para a cidade. Não é algo para o futuro, é algo que pode acontecer agora, a qualquer momento.

Márcia, eu, Venuzia e Breno na porta de seu escritório

 

E Breno reforça:

- Eu não sou contra o agronegócio, pelo contrário: minha primeira opção de formação foi engenharia agronômica, mas é preciso ter responsabilidade com o desenvolvimento.

Em sua mais recente viagem a Carajás, Breno, inclusive, conheceu um projeto que vai plantar pés de cacau às margens do Rio Parauapebas. Ele mostrou entusiasmo com a iniciativa, já que, além de ser uma alternativa que beneficia o meio ambiente, também será fonte de renda para povos da região.

Volta e meia durante a conversa, Breno lamenta o desmatamento na região de Carajás e reforça seu profundo desapontamento com o desperdício de recursos por conta, principalmente, da política. Carajás é como um filho para o geólogo, um filho que podia ser muito mais do que se tornou.

O lago de carpas e saudade de dona Yolanda

Já perto de nossa despedida, Breno quis mostrar a Venuzia e a mim uma parte de sua casa que ainda não tínhamos visto. Já era quase 17h e o dia já ia se tornando noite. A temperatura despencara, o que contribuía para um clima de certa melancolia.

Ele nos mostrou um lago bonito construído por Paulo ao lado da piscina. O lugar era de uma beleza sem igual. Dezenas de carpas nadavam felizes no espaço e ficaram ouriçadas com a chegada do dono.

- Elas ficam assim porque nesse horário sabem que eu vou dar comida para elas.

O lago foi construído quando dona Yolanda ainda era viva e que ela amava o lugar. No entanto, após sua partida, o lago tinha perdido a graça para ele. Triste. O maior geólogo do Brasil não falou isso, mas sei que a saudade de sua esposa é algo que dói até hoje.

Ele relatou que viajou bastante de carro com dona Yolanda e que tiveram uma vida boa. Falou de viagens a Santa Catarina e que o estado é muito bom, apesar de alguns reacionários.

A despedida e o catamarã

Na volta para o Rio, já íamos chamar um Uber. No entanto, Márcia e Breno sugeriram um passeio: voltar para a Cidade Maravilhosa de catamarã. A sugestão foi maravilhosa e a aceitamos.

Breno falou que nos levaria até o terminal de Charitas, onde poderíamos pegar o catamarã até a Praça XV, já do outro lado. Márcia nos explicou o trajeto e o que fazer quando chegássemos lá para voltar à Barra da Tijuca.

Sentamos no banco detrás do Corolla, Breno dirigia enquanto nos falava sobre a vida em Niterói, sobre um assalto que sofreu há alguns anos e de como o criminoso levou o seu carro, que tinha R$ 2 mil em remédios para dona Yolanda. Felizmente, o veículo tinha seguro.

 

Ele para o carro na orla da praia, bem em frente ao terminal de Charitas. Pego em sua mão e me emociono com a já inadiável despedida. Nos cumprimentamos, ele fala que quando voltarmos ao Rio temos um lugar para ficar. Abraçamos Márcia e caminhamos para pegar o catamarã.

Ele passa com o carro mais uma vez perto de nós, buzina, sorri, Márcia também nos acena. Digo em voz alta:

- Espero vocês em Carajás em breve!

A vida do maior geólogo do Brasil é tranquila, bem diferente da correria desenfreada dos tempos da busca por manganês na Amazônia. Breno está bem de saúde, extremamente lúcido, cada vez mais inteligente e absolutamente sereno.

Meu amigo não tem medo da morte, pelo contrário. Fala dela com a naturalidade que só uma mente bem estruturada é capaz. Não há lacunas em sua existência, não há nada por fazer, não há grandes arrependimentos. Em suma, está em paz consigo e com a vida que tem. Os filhos e os netos estão bem de saúde e tudo está em ordem. Só tem uma angústia: passar adiante a história de Carajás para o maior número de gerações possível.

Deixamos Niterói para trás a bordo do catamarã. Observamos a noite cair e a cidade ficar menor na distância. Fico pensando em meu amigo, na sua vida tranquila próxima ao mar, penso no cômodo superior de sua casa que guarda uma generosa fatia da história do lugar em que moro. Tão longe de casa, me senti em casa.

O tempo é brutal. Passou rápido o almoço com o herói de Carajás, passou rápido o momento em que pudemos estar ao seu lado, passa rápido também o tempo para a nossa região. Uma pontada de decepção vem à minha alma, talvez o mesmo sentimento que incomoda Breno: será reversível ainda o tempo que foi perdido em Carajás? Talvez sim, mas é provável que não. Breno sabe disso.

Os homens apequenam as suas próprias possibilidades por pensarem somente no agora e em suas próprias ambições. Fosse Carajás descoberto, talvez, em um país com vocação maior para o desenvolvimento coletivo, o que a região não se tornaria? Talvez a mais rica e sustentável província do planeta.

Ainda assim, apesar de todo o tempo perdido e todo o desperdício, Carajás continua sendo maravilhosa e amada por Breno, por Venuzia, por mim e pela maioria das pessoas que aqui mora. Para alguém que não vive o cotidiano de Carajás, o desejo de Breno pode parecer estranho. Como alguém que mora em Niterói, seguramente uma das mais belas cidades do mundo, quer ter suas cinzas jogadas no sudeste do Pará? Porém, quem aqui cresceu consegue compreender o último desejo do maior geólogo do Brasil: ter as cinzas jogadas no lugar que descobriu 60 anos atrás.

De um jeito ou de outro, Breno está sempre voltando para Carajás.

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Kleysykennyson Carneiro

Publicado por:

Kleysykennyson Carneiro

Editor-chefe do Gazeta Carajás. Com mais de 15 anos de atuação no jornalismo, sua trajetória inclui passagens por televisão, assessoria institucional e direção de grandes eventos.

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