Reportagem da Folha de São Paulo publicada no sábado, 13 de dezembro, revelou que comunidades tradicionais e ribeirinhas do norte do Tocantins e do sudeste do Pará vivenciam na pele uma transformação drástica e preocupante: o recuo acelerado das águas dos rios Tocantins e Araguaia. O fenômeno, confirmado por dados oficiais, altera a paisagem, ameaça modos de vida seculares e acende um alerta sobre o futuro da região.
A Folha de São Paulo esteve em Esperantina, no Tocantins, no quilombo Carrapiché, e conversou com o líder Antônio Pereira de Jesus, 64, o Piolho. Ele observa há 30 anos a mudança no rio. "Contar a história do rio Tocantins dá vontade de chorar", desabafa. Ele relata que trechos antes navegáveis por barcos grandes agora exigem que as rabetas sejam carregadas nos braços. Ilhas que não existiam surgiram, e em alguns pontos é possível atravessar o rio a pé. A água, segundo ele, fica morna sob o sol intenso, que frequentemente ultrapassa os 37°C.
A reportagem visitou a região e constatou a situação crítica. No povoado de Pedra Grande (TO), um pouco antes da confluência com o Araguaia, uma antiga estrutura de ferro que prendia a balsa para o Pará está seca há cerca de 20 anos, longe da margem atual do rio. Rosimeire Rodrigues, 59, pescadora aposentada, confirma que as cheias do Araguaia duram menos e são menores, enquanto os períodos de seca se alongam.
Um relatório da Ambiental Media, com base em dados de 51 anos da Agência Nacional de Águas (ANA) publicado em junho, traz números que corroboram as observações das comunidades: a bacia do Araguaia teve uma queda de 10% na vazão mínima, enquanto a bacia do Tocantins perdeu 35% de sua disponibilidade hídrica.
Diante da crise, comunidades buscam se adaptar. No quilombo Carrapiché, as sete famílias pararam de plantar arroz para não desmatar mais e aumentar o calor. Já o sindicato regional de trabalhadores rurais de Esperantina incentiva a agroecologia. "Aqui a gente planta laranja, limão, acerola, tudo dentro da floresta. Aí refloresta e tira a renda", explica Maria Senhora Carvalho, 74, coordenadora da entidade. Ela atribui a redução hídrica diretamente ao desmatamento, prática que observa entre grandes e pequenos produtores.
Em São Miguel do Tocantins, as quebradeiras de coco babaçu, representadas por Maria Silvania Nunes, 49, lutam para conservar as palmeiras, essenciais para sua renda e cultura. Elas denunciam que a "Lei do Babaçu Livre", que protege as palmeiras no estado, não é fiscalizada.
Propostas de monitoramento e proteção dividem opiniões
Para estudar melhor as mudanças, uma parceria entre a Universidade Federal do Norte do Tocantins (UFNT) e uma universidade russa planeja instalar uma Estação de Pesquisa e Monitoramento de Mudanças Climáticas no encontro dos rios, região conhecida como "bico do Bico do Papagaio".
Paralelamente, o ICMBio propôs a criação de uma Área de Proteção Ambiental (APA) no Bico do Papagaio e no Paleocanal do Rio Tocantins. A medida, vista como positiva por lideranças como Maria Senhora, é rejeitada por produtores rurais do Pará, Maranhão e Tocantins, que temem restrições à agropecuária, mesmo em uma APA de uso sustentável.
O cenário é de incerteza. Para o quilombola Piolho, a visão é desoladora: "Do jeito que estou vendo aí, vai acabar a floresta, os peixes e as águas vão secar. O impacto está muito grande. A maior preocupação da gente é preservar". A preservação, agora, parece uma corrida contra o tempo e contra a escassez que avança pelo leito dos rios.
Fonte/Créditos: Reportagem original da Folha de São Paulo: Geovana Oliveira e Zanone Fraissat
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