Um incêndio que começou há cerca de uma semana na Terra Indígena Apyterewa, em São Félix do Xingu, no sul do Pará, mobiliza brigadistas e preocupa moradores de uma aldeia do povo Parakanã. As chamas tiveram início em uma área que era utilizada ilegalmente para criação de gado e que passou recentemente por uma operação de desintrusão para retirada de ocupantes não indígenas.

O fogo atinge uma extensa área de pastagem e vegetação degradada. A principal preocupação é que a combinação entre o tempo seco e os ventos fortes provoque uma mudança na direção das chamas e favoreça a entrada do incêndio em áreas de mata mais preservada, aumentando também o risco de aproximação da aldeia.

A situação chama atenção porque a região já apresenta uma quantidade elevada de registros de queimadas. Segundo levantamento do Instituto Socioambiental (ISA), realizado com dados de satélite entre 31 de maio e 23 de agosto, foram identificados 377 focos de calor dentro da Terra Indígena Apyterewa.

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O cenário se agravou principalmente em agosto. Dos registros contabilizados durante o período analisado, 340 ocorreram somente neste mês, o equivalente a 90,2% do total.

A estiagem contribuiu para o avanço das chamas. De acordo com a análise técnica do ISA, a região chegou a enfrentar períodos de até 12 dias consecutivos sem chuva em agosto, deixando a vegetação mais vulnerável à propagação do fogo.

O levantamento também indica que os incêndios não estão restritos às áreas de pastagem. Entre os focos registrados, 97 apresentaram alta intensidade de energia radiativa, classificação associada à queima de biomassa em áreas de vegetação mais densa.

Outros cinco registros foram classificados como de intensidade extrema, indicando ocorrências de grande porte e com potencial para atingir áreas de floresta primária ou locais com grande quantidade de material vegetal acumulado.

Um dos episódios mais intensos ocorreu em 20 de agosto, quando três grandes focos foram detectados simultaneamente por satélites no período da tarde. Juntos, eles representaram 15,1% de toda a energia radiativa registrada dentro da terra indígena durante os quase três meses de monitoramento.

A área atingida pelo incêndio fazia parte de regiões ocupadas ilegalmente por criadores de gado e outros invasores antes das ações de desintrusão realizadas pelo governo federal.

A Terra Indígena Apyterewa é território tradicional do povo Parakanã e está entre as áreas indígenas historicamente pressionadas por ocupações irregulares, desmatamento e criação ilegal de gado.

Com a retirada dos ocupantes, áreas anteriormente utilizadas para atividades agropecuárias passaram a ser novamente monitoradas. O avanço das queimadas, porém, coloca em alerta a vegetação e as comunidades que vivem dentro do território.

Neste momento, o principal temor é que o incêndio ultrapasse as áreas já degradadas e avance sobre a floresta, aumentando os danos ambientais e elevando o risco para a comunidade indígena próxima.

Os dados do monitoramento reforçam a dimensão do problema: em menos de três meses, centenas de focos de calor foram registrados dentro dos limites da Apyterewa, justamente em um período marcado pela intensificação da seca e das queimadas no sul do Pará.

FONTE/CRÉDITOS: G1