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Breno dos Santos: o homem que descobriu Carajás e mudou a história do Brasil

Em entrevista exclusiva ao Gazeta Carajás, geólogo Breno Augusto dos Santos fala sobre sua vida, história, mineração, desenvolvimento econômico e futuro da região. “Ainda há espaço para novas descobertas. Meu sonho continua sendo o mesmo do início de Carajás”

Breno dos Santos: o homem que descobriu Carajás e mudou a história do Brasil
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Uma viagem no tempo

Imagine o sul e sudeste do Pará 57 anos atrás. Uma imensidão de mata e pouquíssimos habitantes, não havia estradas, escolas, hospitais – uma região completamente isolada e remota, longe de tudo.

Foi para essa região que um jovem, porém experiente, geólogo de 27 anos veio a trabalho, em busca de manganês, um dos metais mais procurados à época. Breno Augusto dos Santos já havia liderado a exploração na Serra do Navio, no estado do Amapá, alguns anos antes. Ele foi convidado para uma entrevista de emprego por meio de um telegrama (foto abaixo) e acabou contratado para desbravar o distante e pouco conhecido sul e sudeste do Pará.

Telegrama recebido por Breno para entrevista de emprego 

 

À época, Breno deixou sua esposa Yolanda e a filha Sandra em São Paulo e voltou para a mata: “Minha esposa Yolanda chorou muito pela decisão de voltar para a Amazônia. Mas prometi que seria apenas por seis meses, até arrumar outro emprego. Só que aconteceu Carajás.”

Sobrevoando toda a região, Breno viu do alto a imensidão de floresta e riquezas que havia na região Araguaia-Xingu, como aqui era chamado antes de Carajás. A busca era por manganês, e Breno enxergou do helicóptero imensas clareiras na floresta, o que chamou a atenção.

Ao descer e explorar de perto, bateu com um martelo em blocos soltos e uma poeira vermelha saiu de dentro: era hematita (hemácias), tudo era canga de minério de ferro. Tal qual Neil Armstrong, primeiro homem a colocar os pés na Lua, Breno acabara de fazer, em 31 de julho de 1967, uma das maiores descobertas geológicas do Brasil – a história estava mudada para sempre.

Uma justa homenagem

Em 2024, ano em que completou 84 anos, Breno foi laureado com o prêmio Pioneiros da Mineração, entregue pela revista Brasil Mineral. O prêmio é um reconhecimento por todas as contribuições de Breno para a história do Brasil e do setor.

O histórico geólogo recebeu a premiação e discursou emocionado para os presentes. Aplaudido de pé em Minas Gerais, Breno falou sobre sua história, trabalho e agradeceu a lembrança.

 Breno recebendo o prêmio - à esquerda, Satya que recebeu o prêmio pelo pai Oniro Marini (in memoriam)

 

Dias depois, procuramos a família de Breno para que ele nos concedesse uma entrevista. Falamos, por meio de nossa página no Instagram, com a sua filha Sandra, a mesma que pequenina morou na Serra do Navio e aparece nos registros históricos abaixo.

Ela nos passou o e-mail do pai e fizemos contato. Ele se dispôs a responder as perguntas e, de forma gentil e atenciosa, respondeu aos questionamentos.

A entrevista

Breno é um homem lúcido, sempre a frente do seu tempo, preocupado com os rumos do Brasil e especificamente da região em que, por tantos anos, trabalhou. É extremamente inteligente, um verdadeiro patrimônio do Brasil, e não poupa críticas a governos que não trabalham pelo desenvolvimento da região, aproveitando os benefícios da mineração. “Infelizmente, em Carajás, a sociedade brasileira perdeu o trem da história, mostrando a sua incapacidade política, empresarial, e até acadêmica, para o correto aproveitamento de todo potencial da região.”

As críticas também ficam para o pouco foco na verticalização da produção mineral. “Se Carajás estivesse em um país com maior desenvolvimento tecnológico e industrial, será que só haveria produção de commodities?”

Questionado pela reportagem, Breno falou sobre a vida-útil das minas de Carajás. Conforme explicou, algumas estão próximas do seu esgotamento, como a mina do Sossego e outras muito distantes, como a jazida da S11 (S11A, S11B, S11C e S11D), em Canaã.

Breno foi questionado ainda se mudaria algo em sua história com a mineração. “Do ponto de vista pessoal, a minha história com a geologia e a mineração superou todos os sonhos. Mas em relação ao desenvolvimento de Carajás, muitos dos sonhos não foram realizados.”

Confira abaixo uma das mais importantes entrevistas já feitas por este portal. Conheça com detalhes a história do homem que mudou a história do Pará e do Brasil, com um martelo na mão, alma de desbravador e um ávido coração cheio de sonhos.

 

Gazeta Carajás: Breno, por que vir para a Amazônia? Pergunto, pois antes de Carajás você foi designado para a Serra do Navio, no Amapá, uma experiência tão desafiadora quanto o Pará, àquela época.

Breno dos Santos: Quando estava para me formar, procurei emprego na Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), que estava na moda. Mas não havia vagas. Um colega, que havia estagiado em Serra do Navio, na ICOMI, falou muito bem do lugar.

Como estava noivo e pretendia casar logo, trabalhar em Serra do Navio tornou-se uma boa opção, pois havia uma bela vila residencial, e a empresa fornecia casa mobiliada, apoio médico, etc. Também tinha o sonho de viajar, de conhecer o País. Por limitações financeiras, pouco havia saído do Estado de São Paulo.

Yolanda, esposa de Breno, e a pequena Sandra de 2 anos

 

Gazeta Carajás: Sobre o trabalho na Serra do Navio... Você também fez um trabalho de prospecção por lá? Qual tipo de minério você encontrou lá? Por quanto tempo esteve no Amapá?

Breno dos Santos: Logo que lá cheguei, o primeiro trabalho foi bem simples. Fazer uma prospecção de laterita, nas savanas existentes entre Santana e Porto Platon (Porto Grande), ao lado dos trilhos da Estrada de Ferro do Amapá.

A ferrovia não usava brita, como lastro, nos trilhos, mas sim concreções lateríticas.

Um pequeno trator, com retroescavadeira, fazia as trincheiras. Com uma prancheta topográfica eu determinava a sua localização, e outro colega geólogo fazia a amostragem.

Ficamos cerca de um mês na Vila Amazonas, junto a Santana, e todo dia um veículo nos levava. O almoço chegava por trolley da ferrovia.

Tudo era muito simples, mas nunca estive em um lugar, na Amazônia, com tanto pium. A solução foi passar óleo diesel nos braços, que enxarcava e matava os piuns, e colocar mosquiteiro no capacete de segurança.

"Nunca estive em um lugar, na Amazônia, com tanto pium"

 

Voltando para Serra do Navio, algum tempo depois, por necessidade da empresa, com apenas 6 meses de formado e 24 anos, fui colocado na função de gerente do departamento de mineração, responsável pela produção do minério de manganês. Foi um caso histórico, pois a profissão de geólogo era recente, e pela primeira vez um geólogo passou a exercer a função específica do engenheiro de minas. Cheguei a ter dois engenheiros de minas como assistentes.

Serra do Navio correspondia à segunda maior mina do Brasil, com a produção de 700 mil toneladas de minério de manganês por ano. A primeira era a da CVRD, em Itabira, com 10 milhões de toneladas de minério de ferro por ano. Eram outros tempos, e a mineração no Brasil ainda estava engatinhando.

Fiquei na ICOMI 3 anos, entre janeiro de 1964 e janeiro de 1967. Comecei a questionar algumas hipocrisias da gestão da empresa, e fui demitido. Mas recebi todas as honras, como partida de futebol no estádio e jantar de despedida, em homenagem.

Quando me preparava para seguir para a estação ferroviária, com a esposa Yolanda e a filha Sandra, com quase 2 anos, os dois caminhões, que transportavam os 50 empregados da mina, pararam em frente de casa, e cada companheiro nos abraçou. Foi a única hora que nos emocionamos, com algumas lágrimas.

 

Gazeta Carajás: E aí você recebeu a missão de desbravar o sudeste do Pará? Como foi esse convite?

Breno dos Santos: Havíamos voado pouco, apenas entre São Paulo e o Amapá. Na volta de Serra do Navio, no trecho entre Rio de Janeiro e São Paulo, pegamos muita turbulência, e juramos que jamais voltaríamos a entrar em avião.

Procuraria um emprego no Sudeste ou no Centro-Oeste, para só viajar pelo chão. Mas foi uma época difícil, com crise no mercado de trabalho para geólogos.

Logo no início, tomei conhecimento do programa do meu ex-professor na USP, o geólogo americano Gene E. Tolbert, mas não tinha interesse em voltar para a Amazônia.

Já estava tentando arrumar emprego fora da geologia, quando resolvi enviar o currículo ao Tolbert, no início de maio. A situação familiar estava complicada, pois fiquei morando com os meus pais, e Yolanda e a filha Sandra, com sua mãe e irmãos. Como o programa do Tolbert era destinado à busca de manganês, a minha experiência, como gerente da principal mina do Brasil, agradou bastante. Logo recebi um telegrama Western para entrevista no Rio de Janeiro.

Acabei sendo imediatamente contratado, para coordenar o programa de busca de manganês, com o mesmo salário que tinha na ICOMI.

Minha esposa Yolanda chorou muito pela decisão de voltar para a Amazônia. Mas prometi que seria apenas por 6 meses, até arrumar outro emprego.

Só que aconteceu Carajás... Ficamos morando em Belém até o início de 1985.

Breno e sua esposa Yolanda

 

Gazeta Carajás: Como foi a descoberta do minério? Como é a história de que você bateu o martelo em uma pedra e saiu um pó vermelho?

Breno dos Santos: Em maio de 1967, logo após a minha contratação, sobrevoamos todo sul do Pará, até o Tapajós. Mas a região escolhida acabou sendo a Araguaia-Xingu (ainda não era Carajás), onde, em 1966, um “gateiro” havia descoberto umas pedras pretas, e a empresa americana Union Carbide, ao tomar conhecimento, iniciou a pesquisa de manganês com uma equipe de geólogos. Era na Serra do Sereno, que fica ao norte da Serra Leste e do garimpo de Serra Pelada.

Tolbert não quis que os seus 3 geólogos ficassem na pequena Marabá, para evitar troca de informações entre as duas equipes. A solução foi montar a base na pequena Altamira. Chegamos até a fazer contato para alugar uma casa de Dona Francisquinha, viúva do famoso seringalista Anfrísio, e mãe do escritor paraense André Costa Nunes.

Só que a Union Carbide, pela controlada CODIM, correu na frente, alugando a mesma casa. Haviam concluído que, se a poderosa United States Steel, através da Meridional, estava indo para Altamira, era porque deveria haver manganês na região.

Restou à nossa equipe estabelecer a sua base em um seringal, do Acyolino, na ilha de São Francisco, no Xingu, onde começamos a atuar, na montagem do acampamento, no final de junho.

Mas em julho, com a chegada das fotos aéreas do Projeto Araguaia, realizado pelo governo brasileiro, através do DNPM, dois fatos chamaram a atenção da equipe.

Em primeiro lugar, as elevações com possibilidades de depósitos de manganês situavam-se mais a leste. Estávamos longe de tudo e perto de nada...

Outro fato marcante foi a constatação da existência de imensas clareiras no meio da floresta. Não havia desmatamento na região, e logo surgiu a questão sobre o que teria causado a falta de floresta sobre elas.

Teríamos que transferir a nossa base para leste.

Após a tentativa absurda de instalar a base operacional na aldeia dos Xicrin, no Cateté, conseguimos autorização de Demóstenes de Azevedo Filho, para utilizar a pista do Castanhal do Cinzento, na beira do rio Itacaiúnas.

E começamos a mudança da equipe, com o pequeno monomotor do piloto Adão Coelho de Barros.

Os velhos helicópteros Bell G já haviam chegado no Xingu, mas não tinham autonomia para voar até o Castanhal do Cinzento.

Quando Tolbert estava voltando para o Rio de Janeiro, fiz um desabafo:

- Como poderei coordenar uma operação de helicópteros, sem nunca ter voado em um deles?

A sua resposta foi simples:

- O que você vai fazer aqui nunca foi feito por ninguém... A companhia está pagando para você aprender.

Ou seja, vire-se, improvise e aprenda.

Assim, perguntei ao piloto e grande amigo Aguiar, se era possível levar combustível no bagageiro do helicóptero.

Ante a resposta positiva, propus um roteiro que havia observado nos mapas da USAF, existentes no escritório do Tolbert, no Rio de Janeiro. Havia notado que as cabeceiras de dois pequenos rios, das bacias do Xingu e do Tocantins, quase se tocavam:  o igarapé Carapanã, afluente do rio Fresco, e o rio Cateté, afluente do Itacaiúnas.

Também perguntei ao Aguiar se seria possível pousar nos pedrais dos rios para abastecer, pois sempre teríamos mais uma hora de voo pela frente. Com a resposta positiva, partimos na manhã do dia 31 de julho. Voaríamos quase sempre sobre rios, com rota conhecida. Se houvesse algum problema, a equipe saberia onde nos procurar. Só entre o Carapanã e o Cateté voaríamos sobre a floresta.

O primeiro abastecimento foi em São Félix do Xingu, e houve outros dois, em pedrais do rio Fresco e do igarapé Carapanã.

Quando atingimos o final do igarapé Carapanã, vimos uma grande serra pela frente. Só que nessa serra também havia uma pequena clareira, observada na foto aérea, semelhante às maiores, e que foi selecionada para ponto de abastecimento e, quem sabe, começar a esclarecer o mistério da existência das clareiras.

Quando o helicóptero se preparava para o pouso, vi aquela crosta preta, e pensei que pudesse ser manganês.

Mas enquanto o Aguiar abastecia o helicóptero, dei as primeiras marteladas nos blocos soltos, e saiu a poeira vermelha, de hematita (hemácias). Tudo era canga de minério de ferro, crosta de alteração superficial, onde era possível observar alguns fragmentos de hematita.

E logo veio a questão: será que as outras enormes clareiras também são de minério de ferro?

Quando o homem se preparava para chegar à Lua, parecia impossível que tudo aquilo ainda estivesse esperando quem chegasse primeiro.

O ferro de Carajás fatalmente seria descoberto nos anos seguintes, com as imagens e o desenvolvimento do Projeto RADAM.

Mas essa descoberta romântica, de quem chegasse primeiro, só foi possível devido ao uso do helicóptero.

 

Gazeta Carajás: Breno, de forma mais simplificada, como é feito o cálculo para saber a quantidade de minério que existe em uma região? Como foi feito o cálculo sobre Carajás?

 

Breno dos Santos: Depende muito do tipo do depósito mineral.

Normalmente é feito com dados da sondagem, e em alguns casos com o apoio de galerias, para a obtenção de maior quantidade do minério, para testes de laboratório. Assim foi feito com o ferro de Carajás, com o cobre do Salobo, do Alemão e do Sossego, além de outros depósitos menores de cobre.

Em depósitos de bauxita e caulim, no passado foram usados poços de pesquisa. Talvez hoje, por segurança, só se utilize a sondagem.

Em Carajás, quando a galeria de pesquisa, da clareira N1, atingiu a hematita sob a canga, em fevereiro de 1968, não havia mais dúvida de que o potencial de minério de ferro de Carajás era gigantesco. A pesquisa foi necessária para determinar a sua dimensão. As reservas são definidas com cálculos matemáticos, de acordo com a área e o volume de influência, de cada dado da pesquisa utilizada. Por exemplo, dados das análises dos testemunhos de sondagem ou da amostragem de poços.

No passado, o cálculo era feito pelos profissionais da pesquisa, mas hoje há programas digitais específicos para isso.

Quanto maior a densidade da amostragem, maior a precisão do cálculo, mas também maior o custo.

  

Gazeta Carajás: Ao descobrir a imensa quantidade de minério existente em Carajás, você tinha consciência de que havia feito uma das maiores descobertas da história?

Breno dos Santos: No momento tudo parecia um sonho absurdo, difícil de acreditar. Mas houve a expectativa. Tanto assim, que no dia 2 de agosto segui para Belém, para comunicar ao Tolbert, por telefonema da Radional, a hipótese de que as clareiras eram devidas à canga de hematita, com possibilidade de grande potencial em minério de ferro na região.

Nesse telefonema é que foi batizada a Serra Arqueada, pela sua forma dobrada na foto aérea.

Mas o amigo Tolbert, talvez subestimando o meu entusiasmo, determinou que não havia interesse, por haver muito minério de ferro no mundo, e o objetivo do programa era descobrir manganês.

Mesmo assim, a curiosidade da jovem equipe de geólogos predominou.

No início de agosto, um sobrevoo em baixa altura, com o monomotor do Adão, sobre as clareiras da Serra Norte, confirmou a grande semelhança com a clareira da Serra Arqueada.

E no final do mês, com os dois helicópteros disponíveis, todas as clareiras foram visitadas pelos três geólogos da equipe, confirmando a presença de canga hematítica.

Mas o objetivo era descobrir manganês. Por onde começar, em uma área de 70 mil quilômetros quadrados?

Mas a sorte continuava do nosso lado. Na primeira serra selecionada, na margem esquerda do rio Itacaiúnas, no início de setembro foi descoberto um grande depósito de manganês.

Assim, em pouco mais de um mês, haviam sido descobertas as fabulosas reservas de minério de ferro de Carajás, e a grande jazida de manganês de Buritirama.

 

Gazeta Carajás: Você acompanhou o desenvolvimento da região após a descoberta de Carajás, você acredita que haveria um terço deste desenvolvimento se não fosse a mineração?

Breno dos Santos: Não sei qual seria o desenvolvimento da região, sem o potencial mineral de Carajás, mas seria certamente bem menor.

O agronegócio, principalmente a pecuária, já estava entrando na região, por Conceição do Araguaia e Redenção. E já havia uma política, dos governos federal e estadual, de abrir estradas na Amazônia, o que possibilitaria o desenvolvimento do agronegócio.

Mas o maior desenvolvimento, de Parauapebas, Canaã dos Carajás e Marabá, deve-se à mineração.

É só comparar com o desenvolvimento dos municípios que dependem exclusivamente do agronegócio.

Certamente, não haveria uma ferrovia na região.

Além disso, deve-se lembrar que a construção da hidrelétrica de Tucuruí, iniciada na década de 70, foi motivada pela existência de depósitos de bauxita na Amazônia, que possibilitaram a implantação do complexo de alumínio Albrás-Alunorte.

Gazeta Carajás: Você se orgulha de ser o descobridor de Carajás?

Breno dos Santos: Não tenho orgulho, mas sim a felicidade de ter participado daquele momento. A vida me deu a chance de sonhar, antes de todos, que poderia haver um grande potencial em minério de ferro na região. Ter vivido aquele momento não tem preço.

Mas tenho muito orgulho de ter participado da equipe, que desenvolveu teorias e tecnologias, para a descoberta dos depósitos de cobre-ouro em Carajás.

Além disso, tenho a alegria de ser a única pessoa, que teve a chance de acompanhar as descobertas, e o desenvolvimento da região de Carajás, de julho de 1967 até hoje.  

 

Gazeta Carajás: Breno, você é um defensor da mineração, imagino. Como você acredita que governos e sociedades devem conduzir os processos em regiões, como foi o caso de Carajás?

Breno dos Santos: Qualquer empreendimento econômico é um agente de desenvolvimento regional. A mineração pode ser um deles.

No caso de Carajás, a situação é mais privilegiada, pois além do potencial e da diversidade mineral, a região está na área de influência de duas das maiores hidrelétricas do País – Tucuruí e Belo Monte –,  possui boa disponibilidade de água, excelente ferrovia, dois ótimos portos para o comércio internacional – Ponta da Madeira, em São Luís, e Vila do Conde, em Barcarena –, razoável rede rodoviária, áreas com boa qualidade de solos, e passadas 4 décadas, só produzimos commodities minerais e da pecuária.

A Vale e outras empresas de mineração cumprem o seu papel, com tecnologia adequada, bem como as suas obrigações ambientais, sociais e fiscais.

Mas não houve um programa da sociedade brasileira, através de seus governos, para o desenvolvimento integrado da região, criando condições para surgimento de novos negócios, que agregassem tecnologia aos produtos minerais, gerando maior valor final. E com a criação de empregos bem remunerados.

Infelizmente, em Carajás, a sociedade brasileira perdeu o trem da história, mostrando a sua incapacidade política, empresarial, e até acadêmica, para o correto aproveitamento de todo potencial da região.

Se Carajás estivesse em um país com maior desenvolvimento tecnológico e industrial, será que só haveria produção de commodities?

Trabalho em busca de minério

 

Gazeta Carajás: Você acredita que governos têm conduzido com responsabilidade processos de desenvolvimento em regiões minerárias?

Breno dos Santos: No caso de Carajás, no início da implantação do Projeto Ferro, o governo federal criou o “Programa Grande Carajás”, que teria o objetivo de promover o desenvolvimento integrado da região, a partir da mineração.

Mas acabou sendo apenas um programa político, sem resultado prático.

De modo geral, os governos acompanham os projetos de mineração de forma passiva, como o fazem com qualquer outro projeto de empresas privadas.

Em alguns casos, os projetos de mineração diferem de empreendimentos industriais e do agronegócio, por criarem uma infraestrutura regional, como ferrovia, rodovia, porto, abastecimento de eletricidade e de água, que poderia motivar a ação dos governos para um desenvolvimento integrado.

 

Gazeta Carajás: Breno, preocupa você a possibilidade de que a mineração traga, em algum momento, mais problemas do que soluções?

Breno dos Santos: A mineração que observa as leis brasileiras, com responsabilidade ambiental, social e fiscal, geralmente traz benefícios nas regiões onde atua.

Infelizmente, hoje, particularmente na Amazônia, confunde-se a mineração com a lavra clandestina, que não passa de garimpo ilegal, com equipamentos de lavra.

Esse tipo de lavra é exercido ao arrepio da lei, sem qualquer responsabilidade ambiental, social e fiscal, invadindo reservas florestais e terras indígenas.

Além dos problemas que causa, acaba maculando toda atividade mineral.

Geralmente, os males desse tipo de lavra são expostos pela mídia e ficam no imaginário das pessoas, confundindo com a mineração legalizada.

 

Gazeta Carajás: Na sua visão, como deve ser tratada a finitude dos recursos minerais por parte de governos?

Breno dos Santos: Todo depósito mineral, assim como qualquer recurso natural, é finito. Mesmo as fantásticas reservas de minério de ferro, de alto teor, de Carajás.

Cabe à sociedade dos municípios, beneficiados pela mineração, ter isso sempre em mente, atuando para o desenvolvimento de outras atividades econômicas, que permitam a sua sobrevivência, quando do término dos bens minerais.

No caso de Parauapebas, o município situa-se em uma região privilegiada, onde além da industrialização dos produtos minerais, há espaço para o turismo, para o reflorestamento, para o desenvolvimento de uma pecuária de qualidade, e para a produção de frutas, entre elas o açaí, em parte destinada à exportação.

Há necessidade de que a sociedade encontre a capacidade de inovar, encontrando novos caminhos. Tudo começa com a educação de qualidade de sua juventude.

 

Gazeta Carajás: Você prevê que Carajás tem quantos anos de vida útil até o seu esgotamento total?

Breno dos Santos: O tempo de exaustão de qualquer mina vai sempre depender do mercado consumidor, bem como da ampliação ou redução das reservas conhecidas.

Quando se discute a exaustão das minas de Carajás, sempre se está referindo ao minério de ferro de alto teor.

Em relação a esse tipo de minério, extraído na Serra Norte, que até o presente trouxe os benefícios econômicos, e consequentemente sociais, para Parauapebas, a sua exaustão pode ocorrer em poucas décadas.

A mina de manganês do Azul já foi exaurida, praticamente em 4 décadas, o mesmo tempo de existência da famosa jazida de Serra do Navio, no Amapá.

O município de Marabá recebe, atualmente, os benefícios fiscais das minas cobre-ouro do Salobo e de manganês de Buritirama.

Canaã dos Carajás terá um futuro mais duradouro, em relação ao potencial de minério de ferro, de alto teor, existente na Serra Sul. A jazida da S11 (S11A, S11B, S11C e S11D) sempre correspondeu a de maior potencial de Carajás, superando todas da Serra Norte.

A sua lavra foi iniciada pelo Complexo S11D Eliezer Batista, com tecnologia nova, com britadores primários móveis junto às escavadeiras, e com um sistema de concentração da hematita a seco. Há pouca operação com caminhões e todos os demais equipamentos são elétricos, com redução da poluição. Também não há barragem de rejeitos, o que elimina os riscos ambientais.

Além disso, na extremidade leste da Serra Sul há a jazida do Cristalino, com depósitos de minério de ferro e de cobre, cuja lavra está em estudos pela Vale.

A mina a céu aberto do Sossego está próxima da exaustão, mas há depósitos menores de cobre nas proximidades. E a lavra subterrânea do Sossego precisa ser avaliada.

Também há estudos para produção de níquel e cobalto na jazida do Vermelho.

Mas deve ficar claro, que a exaustão da hematita, de alto teor, na Serra Norte, não significa o fim do potencial mineral do município de Parauapebas.

O minério de alto teor em Itabira, em Minas Gerais, já foi lavrado há muito tempo. Ainda na época da CVRD estatal, foi desenvolvido um processo para concentração do itabirito, cujo produto final é destinado às plantas de pelotização, situadas em Vitória.

Acampamento de Breno dos Santos no Xingu

 

As reservas de itabirito de Carajás nunca foram devidamente pesquisadas, mas devem estar na casa de dezenas de bilhões de toneladas. Há depósitos de itabiritos quase dentro da cidade de Parauapebas.

Deve ser lembrado que, embora o minério de ferro, de alto teor, seja o que possibilita maiores vendas e lucros, com grandes benefícios fiscais aos munícipios, Carajás corresponde a uma província mineral polimetálica, destacando-se também o cobre, o manganês, o níquel e o ouro.

No caso do cobre, além das grandes minas do Salobo e do Sossego, depósitos menores também começam a entrar em produção.

E deve ser salientado que nem todo conhecimento geológico de Carajás está definido, ainda há muitas dúvidas a serem esclarecidas. Pode-se dizer, que o seu conhecimento geológico está no estágio em que estava o subsolo da Austrália e do Canadá, meio século atrás.

Até o momento, apenas um depósito de cobre-ouro, não aflorante, o do Alemão, foi descoberto.

Ainda há espaço, para novas descobertas.   

 

Gazeta Carajás: Qual o seu maior sonho para o futuro da mineração?

Breno dos Santos: Enquanto a humanidade investir em produtos que contribuam para a melhoria de sua qualidade de vida, a mineração será necessária.

Dado o consumo crescente de bens minerais, muitos dos ricos e maiores depósitos serão exauridos.

Tecnologias terão que ser desenvolvidas para o aproveitamento de depósitos minerais mais pobres, a custo econômico. Talvez isso motive uma maior reciclagem dos produtos de origem mineral.

Mas, a não ser que haja uma grande transformação no consumo da humanidade, a mineração ainda vai continuar existindo por muito tempo.

Nesse quadro, o meu sonho continua sendo o mesmo do início de Carajás.

Que a mineração seja um agente de desenvolvimento, e contribua para a evolução social da região atingida, sem graves danos ambientais.

Gazeta Carajás: Se você pudesse mudar algo na sua história com a mineração, mudaria?

Breno dos Santos: Do ponto de vista pessoal, a minha história com a geologia e a mineração superou todos os sonhos.

Mas em relação ao desenvolvimento de Carajás, muitos dos sonhos não foram realizados.

Embora haja uma mineração de qualidade, com responsabilidade ambiental, social e fiscal, não tivemos competência, como sociedade, para um melhor aproveitamento do potencial mineral de Carajás, agregando tecnologia e valor aos produtos finais.

Além disso, a ocupação no entorno das reservas florestais e das terras indígenas, foi feita sem o devido zoneamento ambiental, com insensata destruição da floresta, sem respeitar encostas e matas ciliares, o que poderá causar muitos problemas no futuro.

A quantidade de jazidas e a produção mineral superou todos os sonhos iniciais. Mas também houve a decepção, em relação ao desenvolvimento da região, com destruição ambiental e sem harmonia social. E em uma região tão rica, a ocupação que houve, muitas vezes através da grilagem de terras, ainda causou muita pobreza.   

 

 

 
 
 
 
 
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Fonte/Créditos: Fotos: Acervo pessoal de Breno dos Santos e Museu da Pessoa

Créditos (Imagem de capa): Foto de Capa: Correio de Carajás

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Kleysykennyson Carneiro

Publicado por:

Kleysykennyson Carneiro

Editor-chefe do Gazeta Carajás. Com mais de 15 anos de atuação no jornalismo, sua trajetória inclui passagens por televisão, assessoria institucional e direção de grandes eventos.

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