Um estudo econométrico publicado na renomada revista Nature Communications derruba o mito de que o garimpo ilegal traz desenvolvimento para os municípios onde se instala. A pesquisa, intitulada "Perda florestal e ganhos econômicos incertos da mineração industrial e garimpo em municípios brasileiros", mostra que, apesar de a mineração industrial também causar danos ambientais e incertezas econômicas, o garimpo é muito pior, já que acelera a devastação e gera poucos benefícios econômicos sustentáveis.
Mineração x garimpo: impactos distintos
A análise comparativa revela que, embora ambas as atividades causem danos ambientais e submetam os municípios a crises quando os preços dos minerais caem, o garimpo tem efeitos ainda mais nocivos. Enquanto a mineração industrial proporciona maior crescimento econômico local em períodos de alta das commodities, o garimpo – mesmo o legalizado – está associado a maior evasão fiscal, menos controle ambiental e externalidades negativas mais graves, como desmatamento e degradação do solo.
O estudo destaca que, nas últimas décadas, o garimpo passou a utilizar maquinários pesados semelhantes aos da mineração industrial, porém sem os mesmos padrões de fiscalização. Isso amplia seus impactos negativos, especialmente na Amazônia, onde a atividade avança descontroladamente.
A "maldição dos recursos minerais"
A pesquisa confirma a chamada "maldição dos recursos naturais": municípios dependentes da mineração têm crescimento econômico volátil, com receitas que despencam quando os preços das commodities caem. Além disso, outras atividades econômicas locais tendem a ser abandonadas, aumentando a dependência do setor extrativo.
Entre 2005 e 2020, a área minerada no Brasil quase dobrou, passando de 180 mil para 351 mil hectares. Apesar de representar uma fração mínima comparada à soja (47,6 milhões de hectares em 2024), a mineração gera impactos desproporcionais, com desmatamento e pressão sobre ecossistemas frágeis.
Chamado por maior sustentabilidade e regulação
O estudo, liderado pelo economista Sebastian Luckeneder, da Universidade de Viena, e com participação da pesquisadora Juliana Siqueira-Gay (USP), alerta para a necessidade de políticas que reduzam a dependência local da mineração e aumentem a sustentabilidade do setor.
"Os resultados reforçam as preocupações de que a expansão desregulada do extrativismo aumenta o desmatamento e a vulnerabilidade econômica das regiões mineradoras", afirma o artigo. A pesquisadora Juliana Siqueira-Gay, que também coordenará um projeto sobre impactos cumulativos no Xingu, já havia alertado em 2020 sobre os riscos da abertura de terras indígenas para mineração – proposta contida no polêmico PL 191/2020, arquivado em 2023.
Desenvolvimento frágil e custo ambiental alto
A mineração, especialmente o garimpo, pode até gerar riqueza temporária, mas seu legado é de instabilidade econômica e degradação ambiental. Com a crescente permissividade para o garimpo no Brasil, os autores do estudo defendem maior rigor na regulação e alternativas de desenvolvimento que não aprofundem a dependência de um setor tão volátil e predatório.
Fonte/Créditos: Informações do blog O Britador e Notícias de Mineração
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